O legado do Pré Caju

Cultura


Rian Santos
riancalangodoido@yahoo.com.br

Não por acaso, o Fest Verão de Fabiano Oliveira é anunciado como uma tábua de salvação econômica em certas páginas da província. De acordo com a propaganda divulgada em forma de notícia, os trinados cansados de Bell Marques têm o condão de atrair multidões de turistas, caravanas imensas de visitantes curiosos. Mentira deslavada. Fatos pregressos desmoralizam o argumento adotado para justificar o engodo de uma nova parceria entre os entes públicos e o empresário.
Se não me falha a memória, Fabiano já foi condenado a devolver R$ 4 milhões aos cofres do Ministério do Turismo. Segundo a sentença, os recursos investidos na realização do Pré Caju foram empregados em benefício particular, com o fim de viabilizar uma iniciativa estritamente privada. O patrimonialismo é o único legado do Pré Caju, motivo de sobra para a turma de Fabiano sorrir à toa.

À época, a ocupação da rede hoteleira local, justo em período de alta estação, era apresentada como uma evidência da repercussão nacional da festa, realizada com aporte de recursos públicos, além de um apoio milionário em logística, a cargo do governo de Sergipe e Prefeitura de Aracaju. Pois bem. A semana passada, feriado prolongado, ainda às vésperas do verão, os hotéis da Orla estavam com 95% dos leitos ocupados. As festas de Fabiano não entram na equação. O empenho do trade turístico, o céu azul e a grande extensão de praias é o que nos valem.
Um pouco de história não faz mal a ninguém. A boa vontade dos entes públicos com os promotores do Pré Caju é reveladora. A festa foi incluída no calendário turístico e cultural da capital por lei municipal em 1993. Três anos depois, outra lei reconheceu a ASBT como entidade gestora e organizadora do evento. Depois, a associação foi agraciada com o certificado de utilidade pública estadual, sem fins lucrativos. A micareta  chegou a ser reconhecida pelas autoridades como um evento estratégico, uma das principais cartadas para promover o turismo local.

Os gestores não explicam, contudo, porque depois do investimento vultoso, realizado durante mais de duas décadas a fio, nem mesmo o principal financiador da festa reconheceu a capital sergipana como destino apropriado para os visitantes. Foi o Ministério do Turismo quem indicou os 184 destinos adequados para receber os turistas durante a Copa do Mundo de 2014. No Nordeste, foram contempladas cidades do Maranhão, Rio Grande do Norte, Piauí, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Bahia e Ceará. Entre os nove estados nordestinos, Sergipe foi o único deixado de fora. E não poderia ser diferente. A ausência de investimento na cadeia produtiva da cultura local redundou numa espécie de não-lugar simbólico, onde nenhum traço de autenticidade prospera.
Há, sim, sopapos de inspiração genuína reverberando aqui e ali. Mas sem a criação de mercado, estes ficam reduzidos a esforços individuais, sem a necessária repercussão, motor da indústria criativa, capaz de atrair a curiosidade dos milhares interessados na descoberta de valores locais.

O enorme prestígio do empresário junto aos caciques da aldeia sempre lhe rendeu acesso privilegiado aos cofres públicos, como prova a presença de tantas autoridades no lançamento do Fest Verão, esta semana. O ex-governador Albano Franco (PSDB) e o presidente da Câmara Municipal, Nitinho Vitale (PSD), estavam entre os que prestigiaram o lançamento do Fest Verão Sergipe 2020. O prefeito Edvaldo Nogueira (PCdoB) não compareceu, cumpria agenda em Brasília, mas mandou três secretários para representá-lo: Luiz Roberto (Emsurb), Jorge Araújo Filho (Governo) e Marlysson Magalhães (Indústria, Comércio e Turismo). Pergunte se estes passearam pelas ruas de São Cristóvão, durante os quatro dias do Festival que atraiu tanta gente para a Cidade Mãe. Pois então.


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