Um poeta em vestes de menino

Geral


  • Quem quiser que se engane com o seu corpo franzino

 

Rian Santos
riancalangodoido@yahoo.com.br
Um poeta sensível à fi-
sionomia das paisa-
gens, capaz de se entender com o humor misterioso de astros e bichos, corre o risco de ser tomado por um sujeito alienado, com olhos fechados para as pelejas comuns aos homens de carne e osso. Ledo engano. Quem pensa assim deveria folhear 'Modo de falar às coisas', de Francisco Pippio. Em lugar de procurar versos no mato, como se enfeitiçado pelo rabo aceso dos vagalumes, ele cavouca a própria memória afetiva, certo de encontrar a si mesmo em vestes molambentas de menino.
A tutela das tias velhas, mãe, pai, avó e avô, um universo familiar de contornos bem definidos, permeia meia centena de poemas situados nas brenhas da meninice. Herdeiro de um horizonte imenso, Pippio vê de tudo: vacas, estrelas, arvoredos, casas, igrejas, pedras, galos, passarinhos... É este o vocabulário adotado para afirmar as certezas e também as dúvidas de homem feito - um remendo alinhavado com as aventuras inocentes dos tempos idos.
Talvez por isso, por lançar mão dos signos soltos no pasto, Pippio sofra uma imprópria comparação com Manoel de Barros - tão óbvia quanto enganosa. Há, sim, algo do encanto natural do poeta do Mato Grosso, o olhar deslumbrado sobre a opulência da vida em volta, neste 'Modo de falar às coisas'. O dicionário usado é o mesmo. Pippio, no entanto, assim me parece, jamais fabrica ocasos, se atém aos poentes apagados na chapa fria da cachola gasta.
Quem tem a mania de procurar consolo nos livros deveria sair à cata destas poucas páginas. O livro é um menino destes que se vê de baleadeira à mão, os pés sujos de correr o dia inteiro, atrás de abater os pardais desprevenidos. Não tem nada de ingênuo. Quem quiser que se engane com o seu corpo franzino.

Um poeta sensível à fi- sionomia das paisa- gens, capaz de se entender com o humor misterioso de astros e bichos, corre o risco de ser tomado por um sujeito alienado, com olhos fechados para as pelejas comuns aos homens de carne e osso. Ledo engano. Quem pensa assim deveria folhear 'Modo de falar às coisas', de Francisco Pippio. Em lugar de procurar versos no mato, como se enfeitiçado pelo rabo aceso dos vagalumes, ele cavouca a própria memória afetiva, certo de encontrar a si mesmo em vestes molambentas de menino.
A tutela das tias velhas, mãe, pai, avó e avô, um universo familiar de contornos bem definidos, permeia meia centena de poemas situados nas brenhas da meninice. Herdeiro de um horizonte imenso, Pippio vê de tudo: vacas, estrelas, arvoredos, casas, igrejas, pedras, galos, passarinhos... É este o vocabulário adotado para afirmar as certezas e também as dúvidas de homem feito - um remendo alinhavado com as aventuras inocentes dos tempos idos.
Talvez por isso, por lançar mão dos signos soltos no pasto, Pippio sofra uma imprópria comparação com Manoel de Barros - tão óbvia quanto enganosa. Há, sim, algo do encanto natural do poeta do Mato Grosso, o olhar deslumbrado sobre a opulência da vida em volta, neste 'Modo de falar às coisas'. O dicionário usado é o mesmo. Pippio, no entanto, assim me parece, jamais fabrica ocasos, se atém aos poentes apagados na chapa fria da cachola gasta.
Quem tem a mania de procurar consolo nos livros deveria sair à cata destas poucas páginas. O livro é um menino destes que se vê de baleadeira à mão, os pés sujos de correr o dia inteiro, atrás de abater os pardais desprevenidos. Não tem nada de ingênuo. Quem quiser que se engane com o seu corpo franzino.

 


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