Dois Papas por um olhar brasileiro

Geral


  • Os bastidores do Vaticano

* Antonio Passos
Há coisas que são secretamente secretas essas, não duvidem, podem ser terríveis - há outras que são explicitamente secretas. No segundo caso está o processo para escolha do líder mundial da Igreja Católica Apostólica Romana. Das coisas secretamente secretas, quase sempre, não sabemos sequer que existem. Essas, em raros casos, só passam a ser sabidas quando ocorre um furo em alguma invisível blindagem e um consequente vazamento. Já as coisas que são explicitamente secretas, delas sabemos a existência e o deliberado e público ocultamento desperta enorme curiosidade.

Um desses processos em torno dos quais crepita a curiosidade é a eleição de um Papa. O que dizer então de um processo (tão recente) que abrange dois conclaves entremeados por uma renúncia papal? Esse, de saída, é o grande atrativo oferecido pelo filme Dois Papas: a abertura de uma greta que leva a um certo ângulo dos bastidores do Vaticano desde a morte de João Paulo II, passando pela escolha e a renúncia do alemão Joseph Ratzinger (Bento XVI) e chega até a confirmação do argentino Jorge Bergoglio, o Papa Francisco.

A natureza do tema provocará os corriqueiros questionamentos sobre veracidade. Não sendo propaganda grotesca, penso no filme enquanto arte. Nos diálogos entre Bento XVI e o cardeal Bergoglio o diretor usa planos bem fechados e movimentos que simulam uma câmera na mão ou escondida. Essa estratégia sugere uma invasão da confidencialidade e reforça a percepção de flagrante do secreto. Há também o uso de imagens jornalísticas, a exemplo de cenas da cerimônia fúnebre de João Paulo II e depoimentos de populares sobre a escolha por Ratzinger.
Ao imiscuir-se nas coxias do Vaticano o filme mostra uma igreja católica cônscia de sua dupla face, etérea e mundana. Para tanto não desvia de assuntos espinhosos, tais como: escândalos financeiros relacionados à administração do banco papal, a prática acobertada de abusos sexuais pelo clero e as acusações de omissão ou cumplicidade do então padre Jorge Bergoglio no contexto da sanguinária ditadura militar imposta na Argentina, entre 1976 e 1983.

Além de belas imagens dos fabulosos acervos de arquitetura, pinturas e esculturas, incrustados no Vaticano, teologia, camaradagem, comédia, um pouco de música e até um tímido ensaio de passos de tango fazem prevalecer a imagem de uma milenar instituição religiosa fundada em dignidade. De um vivo embate entre intelecto e coração decorre a escolha que leva a Igreja Católica Apostólica Romana ao atual caminho em busca de renovação cristã e conexão com o mundo em permanente ebulição. Ao final uma surpresa para mim - até então distraído de tal informação: a direção do filme é do brasileiro Fernando Meirelles.

Salvo engano meu, ouvi da voz transcrita de Borges que foi Dickens o inventor do Natal, assim como o vivenciamos hoje. Pois bem, reconhecendo essa força da arte, é oportuno e animador recepcionar esse Papa Francisco apresentado por Meirelles, ainda mais agora neste tempo tão assombrado por figuras bestiais tais como Donald Trump e seus turvos reflexos.
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos

Há coisas que são secre- tamente secretas -  essas, não duvidem, podem ser terríveis - há outras que são explicitamente secretas. No segundo caso está o processo para escolha do líder mundial da Igreja Católica Apostólica Romana. Das coisas secretamente secretas, quase sempre, não sabemos sequer que existem. Essas, em raros casos, só passam a ser sabidas quando ocorre um furo em alguma invisível blindagem e um consequente vazamento. Já as coisas que são explicitamente secretas, delas sabemos a existência e o deliberado e público ocultamento desperta enorme curiosidade.

Um desses processos em torno dos quais crepita a curiosidade é a eleição de um Papa. O que dizer então de um processo (tão recente) que abrange dois conclaves entremeados por uma renúncia papal? Esse, de saída, é o grande atrativo oferecido pelo filme Dois Papas: a abertura de uma greta que leva a um certo ângulo dos bastidores do Vaticano desde a morte de João Paulo II, passando pela escolha e a renúncia do alemão Joseph Ratzinger (Bento XVI) e chega até a confirmação do argentino Jorge Bergoglio, o Papa Francisco.

A natureza do tema provocará os corriqueiros questionamentos sobre veracidade. Não sendo propaganda grotesca, penso no filme enquanto arte. Nos diálogos entre Bento XVI e o cardeal Bergoglio o diretor usa planos bem fechados e movimentos que simulam uma câmera na mão ou escondida. Essa estratégia sugere uma invasão da confidencialidade e reforça a percepção de flagrante do secreto. Há também o uso de imagens jornalísticas, a exemplo de cenas da cerimônia fúnebre de João Paulo II e depoimentos de populares sobre a escolha por Ratzinger.
Ao imiscuir-se nas coxias do Vaticano o filme mostra uma igreja católica cônscia de sua dupla face, etérea e mundana. Para tanto não desvia de assuntos espinhosos, tais como: escândalos financeiros relacionados à administração do banco papal, a prática acobertada de abusos sexuais pelo clero e as acusações de omissão ou cumplicidade do então padre Jorge Bergoglio no contexto da sanguinária ditadura militar imposta na Argentina, entre 1976 e 1983.

Além de belas imagens dos fabulosos acervos de arquitetura, pinturas e esculturas, incrustados no Vaticano, teologia, camaradagem, comédia, um pouco de música e até um tímido ensaio de passos de tango fazem prevalecer a imagem de uma milenar instituição religiosa fundada em dignidade. De um vivo embate entre intelecto e coração decorre a escolha que leva a Igreja Católica Apostólica Romana ao atual caminho em busca de renovação cristã e conexão com o mundo em permanente ebulição. Ao final uma surpresa para mim - até então distraído de tal informação: a direção do filme é do brasileiro Fernando Meirelles.
Salvo engano meu, ouvi da voz transcrita de Borges que foi Dickens o inventor do Natal, assim como o vivenciamos hoje. Pois bem, reconhecendo essa força da arte, é oportuno e animador recepcionar esse Papa Francisco apresentado por Meirelles, ainda mais agora neste tempo tão assombrado por figuras bestiais tais como Donald Trump e seus turvos reflexos.

* Antonio Passos é jornalista





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