Os diários da quarentena

Geral


  • John e Yoko, na contramão

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Em pouco tempo, não 
haverá mais o que es-
crever nos diários da quarentena. O gato doméstico que lambe as patas, o menino sem juízo que corre, tropeça e chora, não reclamam muita atenção. No fim das contas, sem outra distração além das janelas abertas, os confinados terão de se ver consigo mesmos.
Segundo uma canção popular, tudo é questão de manter a mente quieta, a espinha ereta, o coração tranquilo. Singelo, tal pensamento não se atém, entretanto, aos fios desencapados da ansiedade hodierna. Já há quem fale em uma sociedade do cansaço. Quem não tem o que fazer, procura.
Outro dia, o baixista Fabio Oliveira aceitava o pedido de músicas, a fim de elaborar o roteiro de uma sessão de voz e violão entre quatro paredes. Depois de o ouvir cantando 'Isolation', de John Lennon, em uma live do Instagram, lembrei de uma das melhores composições escritas pelo Beatle. Desde então, 'Watchingthewheels' não sai de minha cabeça.
A canção é o ponto alto do disco 'Double fantasy' (1980), prejudicado pelos trinados da artista visual Yoko Ono. Na contramão das metas e prazos histéricos de toda a gente, Lennon para e olha em volta, ignora os protestos de engajamento econômico e produtividade, satisfeito de estar com a cara pra cima.
Eu sou desses. Morro de rir, eu e os meus botões, do orgulho besta ostentado pelos assoberbados. Os amigos empregados nas bancas das repartições estão sempre correndo, muito conscientes das obrigações reservadas aos cidadãos responsáveis. Podem até dormir o sono dos justos, embalados por algum ansiolítico, mas estão sempre em falta com os próprios livros.
De tédio não morro. A vida sem graça de ancião, rotina antiga, anterior à pandemia, é recompensada com tempo de sobra para ouvir música, ver todos os filmes, beber os vinhos.

Rian Santos

Em pouco tempo, não  haverá mais o que es- crever nos diários da quarentena. O gato doméstico que lambe as patas, o menino sem juízo que corre, tropeça e chora, não reclamam muita atenção. No fim das contas, sem outra distração além das janelas abertas, os confinados terão de se ver consigo mesmos.
Segundo uma canção popular, tudo é questão de manter a mente quieta, a espinha ereta, o coração tranquilo. Singelo, tal pensamento não se atém, entretanto, aos fios desencapados da ansiedade hodierna. Já há quem fale em uma sociedade do cansaço. Quem não tem o que fazer, procura.
Outro dia, o baixista Fabio Oliveira aceitava o pedido de músicas, a fim de elaborar o roteiro de uma sessão de voz e violão entre quatro paredes. Depois de o ouvir cantando 'Isolation', de John Lennon, em uma live do Instagram, lembrei de uma das melhores composições escritas pelo Beatle. Desde então, 'Watchingthewheels' não sai de minha cabeça.
A canção é o ponto alto do disco 'Double fantasy' (1980), prejudicado pelos trinados da artista visual Yoko Ono. Na contramão das metas e prazos histéricos de toda a gente, Lennon para e olha em volta, ignora os protestos de engajamento econômico e produtividade, satisfeito de estar com a cara pra cima.
Eu sou desses. Morro de rir, eu e os meus botões, do orgulho besta ostentado pelos assoberbados. Os amigos empregados nas bancas das repartições estão sempre correndo, muito conscientes das obrigações reservadas aos cidadãos responsáveis. Podem até dormir o sono dos justos, embalados por algum ansiolítico, mas estão sempre em falta com os próprios livros.
De tédio não morro. A vida sem graça de ancião, rotina antiga, anterior à pandemia, é recompensada com tempo de sobra para ouvir música, ver todos os filmes, beber os vinhos.

 


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