O violino do Titanic

Geral


  • Se a canoa não virar...

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Papel ingrato, esse de 
empunhar um violi-
no enquanto o navio afunda, como quem conforma fatalidade a destino. O vento gelado carrega a notícia pestilenta de 25 mil mortos. Eu, por dever de ofício, insinuo os acordes de um tango, tremo de medo e de frio, na proa do Titanic.
Estamos todos no mesmo barco, o jornalista que vos fala, o leitor confinado dentro de casa, os trabalhadores largados ao Deus dará, que arriscam o próprio pescoço no meio da rua, em troca de alguns tostões furados. Mas nem todos percebemos a embarcação fazendo água. Uns sentem fome. Os privilegiados, no entanto, passam os dias em frente da televisão, os cornos cheios de cerveja, distraídos com as lives.
Uma amiga conta, já há publicação respeitável sobre o assunto. 'A cruel pedagogia do vírus', do sociólogo Boaventura de Souza Santos, se atém aos fossos abertos pelo Covid-19. Se, por um lado, o sofrimento comum acentua as diferenças de sempre, por outro camufla o abismo social em forma de pânico.
A interpretação é da moça. E faz muito sentido. Exemplar, o discurso reproduzido a torto e direitos nas redes sociais, dando conta dos subterfúgios adotados por uns e outros, a fim de suportar a quarentena, aponta na mesma direção. Os iluminados do Instagram administram os discos, os filmes, os livros que materializam o exercício artístico, como quem se entope de comprimidos.
Fatos são fatos. O navio afunda, não há botes salva vidas para todos. Melhor se preparar para o pior. Eu, de minha parte, prendo a respiração, depois de entornar uma dose generosa de conhaque, aceno ao leitor, aos colegas de infortúnio e de ofício.

Rian Santos

Papel ingrato, esse de  empunhar um violi- no enquanto o navio afunda, como quem conforma fatalidade a destino. O vento gelado carrega a notícia pestilenta de 25 mil mortos. Eu, por dever de ofício, insinuo os acordes de um tango, tremo de medo e de frio, na proa do Titanic.
Estamos todos no mesmo barco, o jornalista que vos fala, o leitor confinado dentro de casa, os trabalhadores largados ao Deus dará, que arriscam o próprio pescoço no meio da rua, em troca de alguns tostões furados. Mas nem todos percebemos a embarcação fazendo água. Uns sentem fome. Os privilegiados, no entanto, passam os dias em frente da televisão, os cornos cheios de cerveja, distraídos com as lives.
Uma amiga conta, já há publicação respeitável sobre o assunto. 'A cruel pedagogia do vírus', do sociólogo Boaventura de Souza Santos, se atém aos fossos abertos pelo Covid-19. Se, por um lado, o sofrimento comum acentua as diferenças de sempre, por outro camufla o abismo social em forma de pânico.
A interpretação é da moça. E faz muito sentido. Exemplar, o discurso reproduzido a torto e direitos nas redes sociais, dando conta dos subterfúgios adotados por uns e outros, a fim de suportar a quarentena, aponta na mesma direção. Os iluminados do Instagram administram os discos, os filmes, os livros que materializam o exercício artístico, como quem se entope de comprimidos.
Fatos são fatos. O navio afunda, não há botes salva vidas para todos. Melhor se preparar para o pior. Eu, de minha parte, prendo a respiração, depois de entornar uma dose generosa de conhaque, aceno ao leitor, aos colegas de infortúnio e de ofício.

 


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