O Estudante no Ateneu Pedro II (Parte I)

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Publicada em 20/03/2013 às 15:10:00

* GilFrancisco

Nas muitas conversas que tive com o saudoso amigo Manuel Cabral Machado, segundo ele, um recém chegado do interior para estudar no colégio interno Salesiano, Aracaju em 1930 se estendia da Fundição, hoje Iate Clube, até o Bairro Industrial e para o norte a cidade chegava ao Santo Antônio, ao sul o casario atingia os apicuns da hoje Igreja de São José. A oeste, as ruas subiam os morros de areia descortinando à distância a Penitenciária Modelo. Mas durante a década apresenta um crescimento notável, a cidade se desloca pra a zona oeste, com o surgimento da ferrovia e o decréscimo dos serviços. A reforma da catedral (inicio em 1936 e término dez anos depois) a construção de um novo prédio para a Biblioteca Pública do Estado e a reforma do prédio antigo da Biblioteca, passando a Diretoria de Finanças do Estado (até 1958), foram às mudanças que marcaram a década. Mas o crescimento da cidade aflorou mesmos nas últimas três décadas, período no qual a população triplicou e o número de domicílios também.

É nesse ambiente provinciano de 1930 que surge o jornal O Estudante, órgão literário, humorístico e noticioso da mocidade estudiosa de Sergipe - Pax et Prosperitas, Ano I, nº1, 23 de fevereiro,1930, publicação dos alunos de Ateneu Pedro II, ligado ao Grêmio Literário Pedro II, dirigido por J. Pinheiro Lobão, redator Benedito Guedes, Gerente J. Araújo Monteiro e secretariado por J. Maia Filho tinha um formato 37,5x27, com quatro páginas, não numeradas de quatro colunas, circulavam aos domingos. Informava aos leitores em seu Expediente: "Aceitamos quaisquer colaborações, sendo que estas não sejam dignas da cesta, que não afetem a vida privada ou a dignidade de qualquer pessoa e que não tratem de questões políticas. O Estudante é publicado aos domingos". Traziam nesse número um editorial esclarecedor justificando seu lançamento:

"O nosso aparecimento
Ao galgarmos os degraus desta tão brilhante escalada, que e o jornalismo, não poderíamos deixar de escrever algumas palavras sobre o nosso aparecimento. E bem verdade, que não estamos munidos de tamanho saber, porém, já cultivamos uma pequena parte que nos dá direito a escrever, embora mal, o que sentimos. Também não somos como os grandes literatos, mesmo porque ainda não chegamos a tal fim. Mas, animados pelas palavras do grande Tobias "toda página escrita tem o seu valor" teremos a certeza de que os nossos leitores não se admirarão da nossa atitude e apreciarão a nossa falha. Não temos nenhum interesse em questões pecuniárias.
O nosso aparecimento foi um ideal que abraçamos, pois já começamos a crer que os jovens de hoje serão os homens de amanhã.

O jornal não é menos que um órgão cultivador das letras e também o veículo das verdades.
Não somos políticos, cultivamos as letras como dissemos e, apesar de jovens, trazemos sempre nas nossas colunas a sinceridade de verdadeiros homens de bem".
Firmino Leal Fontes saúda o lançamento de O Estudante com o artigo Para Começar...:
"É para entrar na luta dos sãos princípios que acaba de surgir O Estudante, sob a auspiciosa direção do jovem J. Pinheiro Lobão é para acompanharmos o progresso das cidades civilizadas, para melhor nos distinguirmos em matéria de instrução entre outras terras vizinhas.
É a luta, pois um ideal é a luta em bem da mocidade estudiosa de Sergipe...
Soou a nossa hora, moços conterrâneos!
Auxiliemos mais um que acaba de se erguer; vejamos que na sociedade o essencial e a imprensa, sem ela não haverá desenvolvimento, não há progresso.

E ela uma chave de conhecimento; onde que uma injustiça reclame uma reparação, um perseguido clame por defesa, um faminto implore o pão é ela que levanta o seu grito de alarme procurando restabelecer o equilíbrio social ameaçado
Mocidade!
No meu coração de jovem amante das letras, vi que Ra um dever sagrada apresentar-vos o meu humilde manifesto, para que depois que o lerdes possais vir cooperar conosco nesta nobre cruzada de empreendimento cívico. Sergipe confia em todos os seus filhos, e nós confiamos na mocidade, esta mesma mocidade de outrora que nunca desmereceu da sua altivez baseada como sempre nos seus princípios.

Esta mesma força dinâmica de agora o esforço em que acaba de se empenhar este novo órgão, com o fim de cada vez mais soerguermos as nossas cabeças para o progresso, do engrandecimento da nossa classe.
Estou convicto de que nenhum dos estudantes de Sergipe, desde os menores até os maiores regar-se-á de concorrer para este fim.

Cultivem suas lutas honrando as nossas tradições de sergipanos!
Dediquemos com amor às causas como esta que nos enobreceu pela luta e pelo esforço.
Que assim aconteça, são meus ardentes votos".
Na página principal do jornal saiu um artigo não assinado, que tudo indica ser de autoria do grupo, intitulado, Em Defesa do Estado:

"Assim como Van Hidemburgo teve a ousadia de mostrar ao mundo o quanto vale sua espada, nós estudantes de Sergipe temos a ousadia de lançar às ruas de Aracaju, este pequeno jornal, que serve para combater os direitos dos estudantes pela imprensa. Conterrâneos! Os jornais de Sergipe só tratam de política, e nós, daquilo que precisa a nação para o seu futuro triunfo: O Estado. Foi Rui, que assombrando o universo com o seu saber, elevou bem alto o glorioso nome do Brasil. Foi Tobias, que, com a sua grande inteligência, fez durante um minuto a metrópole se lembrar de Sergipe".

O artigo a Mocidade d'Estudante é assinado por Thales Vieira da Silva:
    "À guisa de um cartão de visita, meus jovens confrades envio a todos vós na singela destas expressões o meu parabéns sincero e entusiástico pela semente que acabas de lançar, semente abençoada que é a do jornalismo, onde os vossos espíritos sempre dispostos para as lutas das  idéias hão de encontrar o verdadeiro conforto, d que necessitam. Não desanimeis, diante dos empecilhos, que haveis de encontrar no meio da jornada, para que o vosso triunfo seja completo. Para os demolidores, e para os pérfidos um remédio salutar nos aconselha o desprezo eterno:
     Continuem altivos na defesa da mocidade que é inteligência, que é energia, que é esperança, e tendo por mira a grandeza de Sergipe intelectual.
    Para frente, a vitória vos espera".

A meu ver é um texto de saudação pela publicação da edição de lançamento d'O Estudante, enviado por um leitor não identificado, mas certamente conhecido pelos diretores do jornal. Foi publicado no nº2, 2 de março:
"Estando satisfeitíssimo com a deslumbrante idéia de nossos amigos Lobão, Maia, Monteiro e o mui admirável Guedes, venho, por meio destas poucas linhas, saudar-lhes pela vitória tão bem aplaudida, que alcançaram no primeiro número do seu agradável jornal, que tive ocasião de sair domingo, 23 do próximo mês passado, com o título de O Estudante.
Futuramente, o mesmo órgão deverá alcançar melhor êxito, graças a sua distinta direção.
É este o meu apanhado. Que sejam felizes e que gozem da simpatia de nossa nobre terrinha, e principalmente dos meus bons leitores.

A meu ver é este o jornal que há muito esperamos, e que devemos auxiliar contra todos os impossíveis, para que o mesmo prossiga na sua campanha de literatura da nossa Estudantada Sergipana".
Na edição nº3, 9 de março, são publicados na coluna intitulada Agradecimentos, alguns comentários sobre o lançamento do nº1 d'O Estudante, veiculados na imprensa sergipana:
"O nosso mui conhecido órgão Sergipe-Jornal, desta cidade, teve a delicadeza de nos fazer ciente ao público aracajuano, com a seguinte nota:

O Estudante
Sobre a nossa mesa de trabalho repousa um número desse simpático jornal do qual fazem parte vários jovens futurosos.
Bem confeccionado, pugnado pelos interesses dos discípulos do saber, está fadado ao mais franco êxito.
Longa e vitoriosa vida é o que lhe desejamos ao mesmo tempo em que agradecemos a remessa do seu 1º número.
Penhorados, os d'O Estudante agradecem.

            ***
Com imensa satisfação, vimos gravadas nas páginas da revista Mercúrio, com atraentes frases a seguinte comunicação sobre o nosso aparecimento:

O Estudante
Com feição bastante agradável e sob a direção de jovens estudiosos e inteligentes, circulou domingo nesta cidade, o simpático jornalzinho O Estudante que se propõe na arena jornalística de nossa terra a defender os interesses da estudantada sergipana.
Agradecendo a visita que nos fez, almejamos-lhe triunfos.
Aos nossos veteranos amigos da revista Mercúrio, os nossos sinceros agradecimentos.

                                        ***

O nosso colega, o jornalzinho Voz de Sergipe, falou ao público sergipano sobre o nosso aparecimento, dizendo:

O Estudante
Como órgão da mocidade estudiosa de Sergipe, surgiu domingo nesta capital mais este jornalzinho, que está sob a direção de moços inteligentes e esforçados.
Vida longa e feliz é o que desejamos e ao mesmo tempo agradecermos a remessa de um número que nos fizeram.
Aos jovens que compõem a Voz de Sergipe, os d'O Estudante, reconhecidos, agradecem".

Vejamos o artigo Saudando o Corpo Redacional do Estudante, assinado por Humberto Leite de Araújo:
"Assim como a vizinha ainda implume roga o alimento e amparo a sua mãe assim eu imploro a minha imbele memória para compor esta modesta e carta saudação aos jovens colegas que compõem a diretoria do importante jornalzinho, O Estudante.
No momento em que todo coração palpita, os olhos, a boca e outras partes do nosso corpo, não ficam alheios a estas expressões de júbilo e de regozijo.

Os meus bons colegas estão virando de entusiasmo por ver realizado o grande ideal do Sr. Pinheiro Lobão. Mais filhos: Araújo Monteiro e Benedito Guedes, moços, cujos corações estão ardendo de esperanças.
E a vós senhores da redação, é a vós que eu me dirijo!
Diante de tão nobre projeto já posto em realidade, como não palpitar também de regozijo o meu coração de estudante vosso, e não e sentir arrebatado de satisfação a minha alma de moço? Eis a razão de eu querer, também pertencer a casa plêiade de jovens esperançosos e desabafar o contentamento que vai entro em meu peito!

Eu me ufano de ser também, comungaste desse nobilíssimo ideal - o estudo! Eu vos saúdo, oh! Jovens d' O Estudante, e juntamente vos ofereço os meus cordiais parabéns, fazendo calorosas preces ao Supremo Deus para que tenhas um êxito ditoso!
Trabalhe, lembrando-vos sempre de que tendes um colega disposto a colaborar e a mourejar convosco, pelo engrandecimento e progresso do "O Estudante"! Eu vos saúdo!".

* GilFrancisco: jornalista, professor universitário, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia
gilfrancisco.santos@gmail.com