As memórias de um gentleman

Rian Santos


  • Elegância da primeira à última página

 

* Rian  Santos
Jorge Carvalho do Nas
cimento resolveu ba
ter à portada imaginação, mas não se decidiu a entrar. Ficou na ante sala do cabaré, cheio de modos, obediente como o estudante aplicado que sempre foi, orgulhoso feito um leão de chácara. Ao invés de se entregar ao desvario com o apetite próprio de quem chega a um banquete, ele s eapegou às fotografias empoeiradas da sala escura. Por sorte, os retratos pendurados nas paredes de fato tinham a sua graça.
Emoucas páginas, O Carvalho conta histórias deliciosas. Cá pra nós, estas pendem mais para o registro histórico e afetivo do que para qualquer investimento na linguagem - única exigência irrevogável da verdadeira Literatura. Ainda assim, a marca do autor emerge, notável.
Jorge Carvalho tem estilo. A sua prosa é fluente, correta, soa clara como uma linha reta. Aqui e ali, o ranço formal da vida acadêmica transparece, em prejuízo do tom adequado a uma boa lorota. Mas a voz do narrador/memorialista prevalece, sempre. Eis, finalmente, o que aqui nos interessa.
O Carvalho realiza um acerto de contas entre um homem e o seu tempo; os valores e convenções de antanho; os comportamentos de antigamente; Aracaju, a cidade onde ele cresceu, outrora. Da origem humilde, restou o perfume nostálgico de um universo matriarcal tão afetuoso quanto austero. O autor escapou de virar padre. Mas o olhar cuidadoso das tias velhas, a avó Petrina, Dona Ivanda, a mãe querida, ainda o vigia e persegue.
Talvez por isso, Jorge Carvalho se mostre tão comedido, cheio de dedos, ao narrar as histórias da vida boêmia local. Ele próprio jamais se embriaga, não exagera nunca, não se dá ao desfrute. Neste particular, os causos narrados se atém exclusivamente à vida dos outros. Mesmo assim, o português impoluto de Jorge Carvalho se abstém de qualquer excesso.
O Carvalho, o "conto" que batiza o volume (com ênfase nas aspas),é lavrado em ironia fina. Aqui, o autor se vinga da investigação genealógica, uma afetação elitista da vida em sociedade, sem perder a pose. Narrada com o oportuno toque de um humor classudo, esta é provavelmente a passagem doída em todo o livro.
Bons modos não são predicados dos melhores escritores, nem dos piores. Mas a melhor Literatura não faz caso das feridas cutucadas pela palavra. Talvez, este seja o principal óbice de O Carvalho. Falta-lhe um tantinho de maldade. Fale de si mesmo ou de terceiros, Jorge Carvalho é um gentleman, não demonstra o menor ressentimento, esbanja elegância da primeira à última página.
* Rian  Santos, jornalista.

* Rian  Santos

Jorge Carvalho do Nas cimento resolveu ba ter à portada imaginação, mas não se decidiu a entrar. Ficou na ante sala do cabaré, cheio de modos, obediente como o estudante aplicado que sempre foi, orgulhoso feito um leão de chácara. Ao invés de se entregar ao desvario com o apetite próprio de quem chega a um banquete, ele s eapegou às fotografias empoeiradas da sala escura. Por sorte, os retratos pendurados nas paredes de fato tinham a sua graça.
Emoucas páginas, O Carvalho conta histórias deliciosas. Cá pra nós, estas pendem mais para o registro histórico e afetivo do que para qualquer investimento na linguagem - única exigência irrevogável da verdadeira Literatura. Ainda assim, a marca do autor emerge, notável.
Jorge Carvalho tem estilo. A sua prosa é fluente, correta, soa clara como uma linha reta. Aqui e ali, o ranço formal da vida acadêmica transparece, em prejuízo do tom adequado a uma boa lorota. Mas a voz do narrador/memorialista prevalece, sempre. Eis, finalmente, o que aqui nos interessa.
O Carvalho realiza um acerto de contas entre um homem e o seu tempo; os valores e convenções de antanho; os comportamentos de antigamente; Aracaju, a cidade onde ele cresceu, outrora. Da origem humilde, restou o perfume nostálgico de um universo matriarcal tão afetuoso quanto austero. O autor escapou de virar padre. Mas o olhar cuidadoso das tias velhas, a avó Petrina, Dona Ivanda, a mãe querida, ainda o vigia e persegue.
Talvez por isso, Jorge Carvalho se mostre tão comedido, cheio de dedos, ao narrar as histórias da vida boêmia local. Ele próprio jamais se embriaga, não exagera nunca, não se dá ao desfrute. Neste particular, os causos narrados se atém exclusivamente à vida dos outros. Mesmo assim, o português impoluto de Jorge Carvalho se abstém de qualquer excesso.
O Carvalho, o "conto" que batiza o volume (com ênfase nas aspas),é lavrado em ironia fina. Aqui, o autor se vinga da investigação genealógica, uma afetação elitista da vida em sociedade, sem perder a pose. Narrada com o oportuno toque de um humor classudo, esta é provavelmente a passagem doída em todo o livro.
Bons modos não são predicados dos melhores escritores, nem dos piores. Mas a melhor Literatura não faz caso das feridas cutucadas pela palavra. Talvez, este seja o principal óbice de O Carvalho. Falta-lhe um tantinho de maldade. Fale de si mesmo ou de terceiros, Jorge Carvalho é um gentleman, não demonstra o menor ressentimento, esbanja elegância da primeira à última página.

* Rian  Santos, jornalista.


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