Réu confesso

Rian Santos


  • A CouttoOrchestra em sua melhor forma

 

* Rian Santos
Culpado. Mil vezes cul-
pado. Este que vos 
escreve, leitor piedoso, é um jornalista em falta com tudo o que há de mais sagrado no mundo. Na hora mais escura, quando nem um fio de esperança foi capaz de se insinuar por baixo da porta, os noturnos de Chopin escancararam todas as janelas de minha casa, como um sopro de serenidade. E, no entanto, eu confesso, estive farto de tanto opinar sobre músicas e canções.
Talvez a ingratidão seja mesmo da natureza dos homens, como dizem os filósofos doentes, gente sem alegria na vida. Talvez o pecado seja apenas meu. Mas ante o presente da música, um regalo sem forma, vibração apenas,as palavras me escapam. Do muito que li sobre o assunto, o quase nada que sei é puro espanto. Só com algum esforço para esconder a vergonha na cara sou capaz de arriscar uma impressão.
Por sorte, a música prescinde da língua ferina de falsas polêmicas e dos julgamentos encomendados - a opinião sem sal dos blogs especializados no tema. Em determinado momento, um tambor ecoa no espaço, com força suficiente para virar memória. Eis tudo. O resto é só afetação.
Ikê Maré - Julico lançou o seu primeiro álbum solo enão ouviu um pio de minha boca. Em verdade, eu fiquei estupefato. Tudo ali me fala ao coração. 
Os timbres da música brazuca de antanho, ainda mais velha do que a minha cabeça calva, um ninho de passarinho formado por fios ralos de cabelos brancos, aquecem o registro da primeira à última faixa.A música de Julico me deixa confortável com a minha própria idade, a passagem inclemente do tempo.'Ikê Maré'é articulado como um reflexo tardio. Os meninos de vinte e poucos anos não encontrarão o que chamam de funk na guitarra de Julico.
Cantingueiros - Nas brenhas do Sítio Ponta da Torta, em São Gonçalo (BA), Xangai evoca suas verdades mais caras, preservadas por obra e graça de encantos alheios às engrenagens da indústria cultural. A web série 'Cantingueiros' atravessa a sensibilidade musical do cantador, de uma ponta a outra. Desde os aboios reverberando na infância de pasto e pastoreio, até as alturas de erudição do menestrel Elomar Figueira de Mello. 
Dividida em quatro episódios, 'Cantingueiros' se escora na prosódia doce de Xangai e os parceiros de uma vida inteira. Bule Bule, Mateus Aleluia, Gordurinha e, claro, Elomar. Fala-se aqui de compositores íntimos de um Brasil profundo, mestiço, de pés descalços na terra - o lado B de um malfadado projeto desenvolvimentista em tudo estranho à essência do lugar.
Paisagens importam. No meio do mato, à beira de um rio, a música de Xangai está em casa. Mais do que os diversos números musicais da série, todos melados de açúcar, excelentes, a série oferece a oportunidade rara de surpreender a fera no seu habitat natural, revisando os próprios feitos, completamente à vontade. Ao falar de si mesmo, um cantingueiro, no seu pedaço de chão ancestral, evocado em tantas canções, Xangai depõe em favor da autenticidade da música regional brasileira, uma qualidade impossível de emular.
As canções, no entanto, tecem sozinhas uma narrativa das mais ricas. Tanto é assim que o projeto se desdobrou em show e disco - uma coletânea das músicas interpretadas na série acaba de ser lançada nas plataformas de streaming, com a direção musical e o acompanhamento classudo do sete cordas Ricardo Vieira. Um luxo!
Thiara - Sobra em 'Thiara', single que a CouttoOrchestra lança hoje, também nas plataformas de música em streaming, a qualidade que fez tanta falta em Voga (2016), segundo álbum do conjunto. Cerebral em excesso, quase frio, o projeto anterior era bem estruturado, ambicioso. Mas pecou por falta de verdade e emoção.
Com'Thiara', a CouttoOrchestra se apresenta de novo em sua melhor forma. A motivação é a mais delicada. O resultado, uma combinação de beats e batidas orgânicas, uma celebração da amizade, também.
* Rian Santos é jornalista

* Rian Santos

Culpado. Mil vezes cul- pado. Este que vos  escreve, leitor piedoso, é um jornalista em falta com tudo o que há de mais sagrado no mundo. Na hora mais escura, quando nem um fio de esperança foi capaz de se insinuar por baixo da porta, os noturnos de Chopin escancararam todas as janelas de minha casa, como um sopro de serenidade. E, no entanto, eu confesso, estive farto de tanto opinar sobre músicas e canções.
Talvez a ingratidão seja mesmo da natureza dos homens, como dizem os filósofos doentes, gente sem alegria na vida. Talvez o pecado seja apenas meu. Mas ante o presente da música, um regalo sem forma, vibração apenas,as palavras me escapam. Do muito que li sobre o assunto, o quase nada que sei é puro espanto. Só com algum esforço para esconder a vergonha na cara sou capaz de arriscar uma impressão.
Por sorte, a música prescinde da língua ferina de falsas polêmicas e dos julgamentos encomendados - a opinião sem sal dos blogs especializados no tema. Em determinado momento, um tambor ecoa no espaço, com força suficiente para virar memória. Eis tudo. O resto é só afetação.

Ikê Maré - Julico lançou o seu primeiro álbum solo enão ouviu um pio de minha boca. Em verdade, eu fiquei estupefato. Tudo ali me fala ao coração. 
Os timbres da música brazuca de antanho, ainda mais velha do que a minha cabeça calva, um ninho de passarinho formado por fios ralos de cabelos brancos, aquecem o registro da primeira à última faixa.A música de Julico me deixa confortável com a minha própria idade, a passagem inclemente do tempo.'Ikê Maré'é articulado como um reflexo tardio. Os meninos de vinte e poucos anos não encontrarão o que chamam de funk na guitarra de Julico.
Cantingueiros - Nas brenhas do Sítio Ponta da Torta, em São Gonçalo (BA), Xangai evoca suas verdades mais caras, preservadas por obra e graça de encantos alheios às engrenagens da indústria cultural. A web série 'Cantingueiros' atravessa a sensibilidade musical do cantador, de uma ponta a outra. Desde os aboios reverberando na infância de pasto e pastoreio, até as alturas de erudição do menestrel Elomar Figueira de Mello. 
Dividida em quatro episódios, 'Cantingueiros' se escora na prosódia doce de Xangai e os parceiros de uma vida inteira. Bule Bule, Mateus Aleluia, Gordurinha e, claro, Elomar. Fala-se aqui de compositores íntimos de um Brasil profundo, mestiço, de pés descalços na terra - o lado B de um malfadado projeto desenvolvimentista em tudo estranho à essência do lugar.
Paisagens importam. No meio do mato, à beira de um rio, a música de Xangai está em casa. Mais do que os diversos números musicais da série, todos melados de açúcar, excelentes, a série oferece a oportunidade rara de surpreender a fera no seu habitat natural, revisando os próprios feitos, completamente à vontade. Ao falar de si mesmo, um cantingueiro, no seu pedaço de chão ancestral, evocado em tantas canções, Xangai depõe em favor da autenticidade da música regional brasileira, uma qualidade impossível de emular.
As canções, no entanto, tecem sozinhas uma narrativa das mais ricas. Tanto é assim que o projeto se desdobrou em show e disco - uma coletânea das músicas interpretadas na série acaba de ser lançada nas plataformas de streaming, com a direção musical e o acompanhamento classudo do sete cordas Ricardo Vieira. Um luxo!

Thiara - Sobra em 'Thiara', single que a CouttoOrchestra lança hoje, também nas plataformas de música em streaming, a qualidade que fez tanta falta em Voga (2016), segundo álbum do conjunto. Cerebral em excesso, quase frio, o projeto anterior era bem estruturado, ambicioso. Mas pecou por falta de verdade e emoção.
Com'Thiara', a CouttoOrchestra se apresenta de novo em sua melhor forma. A motivação é a mais delicada. O resultado, uma combinação de beats e batidas orgânicas, uma celebração da amizade, também.

* Rian Santos é jornalista

 


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