A república "comunista" cristã dos guaranis (1610/1768)

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Publicada em 10/04/2013 às 11:52:00

Quando li pela primeira vez A República "comunista" cristã dos guaranis, do padre dominicano Clovis Logan, 3ª edição, trad. de Álvaro Cabral, 1977 fiquei muito impressionado pela organização social dos Povos das Missões: produção comunitária que garantia o fundo comum, a reserva para necessidades futura, gastos públicos, alimentação aos inválidos, órfãos e viúvas, além da produção excedente destinados à comercialização

* GilFrancisco

Ideologia

Rende-te ou morres,
Grita o governador, e o tape altivo,
Sem responder, encurva o arco e a flecha
Despede, e nela lhe prepara a morte.
Enganou-se desta vez! A seta um pouco
Declina, e açoita o rosto a leva pluma;
Não quis deixar o vencimento incerto
Por mais tempo o espanhol, e arrebatado
Com a pistola lhe fez um tiro ao peito;
Era pequeno o espaço e fez o tiro
No corpo desarmado estrago horrendo!
Viam-se dentro pelas rotas costas
Palpitar as entranhas!... Quis três vezes
Levantar-se do chão... Caiu três vezes...
E os olhos já nadando em fria morte
Lhe cobriu sombra escura e férreo sono!

Basílio da Gama
Do ponto de vista ideológico Uraguai identifica-se perfeitamente com a atmosfera cultural pombalina, cujo intuito elogiativo e colocar Pombal e o seu reinado no centro do palco. Por isso não sente qualquer ressentimento de consciência na distorção dos fatos. No fundo trata-se de um poema heróico-encomiástico, ou um encômio-heróico. A narrativa é entremeada pelas visões de Lindóia: grandes feitos de Pombal reconstruindo Lisboa destruída por um terremoto em 1775 e expulsando do reino os jesuítas.
A epopéia de Basílio da Gama traz um tema dúbio, ao tentar conciliar a louvação do Marques de Pombal e o heroísmo do indígena. A trama tem inúmeros pontos obscuros, por exemplo: não fica clara a razão que leva Balda a manter separadas Lindóia e Cacambo, nem o assassinato deste.

Expulsão dos Jesuítas
Como conseqüência da guerra guaranítica, quando tanto espanhóis como portugueses atribuíram a rebelião dos indígenas à Companhia de Jesus, o tema das missões foi analisado com acentuada suspicácia pelas cortes européias. As intrigas de autoridades locais e interessados feudatários vizinhos que empunham sua impotência rente ao êxito das missões alertavam a Coroa sobre a suposta formação de um "império jesuítico" autônomo.

Em 1759, o Marques de Pombal obtém a expulsão dos jesuítas de Portugal e de suas colônias e, em 1767, Carlos III fez o mesmo com os religiosos localizados em Espanha e seus domínios. No começo de 1768 os jesuítas são presos e transladados para a Europa (a maioria dos missionários falecerá na Itália) e as missões, entregues a administradores que, sob a direção da Junta Real de Temporalidades, se apoderam de todos os bens materiais da Companhia de Jesus.

Decadência das Missões
A substituição dos jesuítas significou não meramente uma deposição formal, mas também uma alteração estrutural na vida dos povoados. Os religiosos da Companhia de Jesus foram substituídos por sacerdotes de outras Ordens: franciscanos, dominicanos, mercedários que muitos nem conheciam o idioma dos guaranis. Esta falta de comunicação foi fatal no momento em que a situação traumática dos indígenas requeria uma melhor compreensão.
A presença desses administradores quebrou a integração comunitária da economia missionária e pretendeu que cada um dos povoados fosse auto-suficiente em todos os aspectos. Com isto, desarticulou-se o sistema econômico e a decadência foi vertiginosa.

A Lenda de Sepé
Sepé Tiaraju nasceu provavelmente entre a segunda e a terceira década do século XVIII e morreu em combate no ano de 1756. Era dotado de forte espírito guerreiro e tornou- se um dos líderes entre os guaranis e obteve a patente de alferes real e corregedor do povoado de São Miguel. Recusou-se a aceitar as disposições do Tratado de Madri e transferir-se para o outro lado do rio Uruguai, deixando as terras das missões para os portugueses. A morte de Sepé apressou a vitória das forças luso-espanholas sobre os índios missioneiros. Mas o grande o herói da Guerra Guaranítica, virou lenda na cultura popular do Rio Grande do Sul, como um santo guerreiro que morreu lutando por sua terra e por sua gente.

Reconstituição
Uraguai (1769) epopéia escrita pelo poeta brasileiro José Basílio da Gama (1741- 1795), este poema épico-indianista, dividido em cinco cantos, em versos brancos e estrofação livre, ainda que de métrica decassilábica, isto é, não necessitando de rimas, que se distancia do esquema tradicional, sugerido pelo modelo camoniano, sendo que "Uma das suas virtudes foi o equilíbrio entre os detalhes históricos e a elaboração ficcional". A matéria da ação épica é limitada: narra à expedição militar de um general ilustre, Gomes Freire Andrade, Governador do Rio de Janeiro, Minas e Comissário da Demarcação do lado português, empreendida por espanhóis e portugueses contra os índios e jesuítas habitantes da colônia de Sete Povos (São Borja, Santo Ângelo, São João, São Lourenço, São Luís, São Miguel e São Nicolau) e Missões do Uruguai A epopéia é a narração em versos, de atos heróicos de caráter real ou imaginário.
Depois do sucesso obtido pelos clássicos europeus e da repercussão alcançada em Portugal por Os Lusíadas, evidentemente o autor brasileiro, sempre sôfrego em imitar os literatos portugueses, não poderia deixar de explorar o aspecto épico da poesia.
Assim houve manifestações típicas na Colônia, devendo ser salientados por Basílio da

Gama com Uraguai em 1769.
A Missão (1986), filme dirigido por Roland Joffé, recebeu vários prêmios inclusive a Palma de Ouro "Melhor Filme" em Cannes. A história que se passa no século 18, onde seria hoje a fronteira entre o Brasil, Argentina e o Paraguai. A América recém- descoberta, com suas riquezas a serem exploradas e seus perigos insuspeitos, serve de fundo para mostrar os conflitos entre os colonizadores portugueses e espanhóis e os jesuítas. Rebert De Niro é Mendonza, faz um violento mercador que captura índios para vender como escravos para os espanhóis. Jeremy Irons é padre Gabriel, que pretende organizar as comunidades guaranis e estabelece a missão na selva, ao lado de outros jesuítas.
Arrependido pelo assassinato de seu irmão, realiza uma auto-penitência e acaba se convertendo em missionário jesuíta. Ele ajuda o líder dos catequizadores a criar um novo mundo em Sete Povos das Missões, mas os portugueses e espanhóis têm outros planos para aquele lugar. Quando Gabriel se recusa a deixar o que construiu, o exército é mandado para tirá-lo de lá a força.

Conclusão
O certo é que a formação da ordem religiosa da Companhia de Jesus no século XVI marcou uma clara etapa de renovação das metodologias de evangelização ou transmissão do credo religioso do catolicismo. A República sobreviveu por 158 anos, onde os missionários jesuítas, e índios guaranis aldeados numa faixa territorial que atualmente se divide entre o Rio Grande do Sul, o Paraguai, a Argentina e o Uruguai, desenvolveram temporariamente aquela que teria sida a primeira república comunista da História, embora espiritualmente cristã. Logo nas primeiras páginas do livro A República dos Guaranis, o prefaciador Henri-Charles Desroches, chama à atenção do leitor para que tire suas dúvidas e compare o conteúdo da experiência guarani e a definição clássica de uma sociedade comunista.

* GilFrancisco é jornalista, professor universitário, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia
gilfrancisco.santos@gmal.com