Crítica de Arte

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Publicada em 03/05/2013 às 11:36:00

* Feliciano José
felicianojoze@live.com

A Oficina do Ator, realizada por várias edições, volta à cena. Sempre comandada por Jorge Lins de Carvalho, fundador do Grupo Raízes, com mais de trinta anos de existência. Esta iniciativa reúne, a cada edição, uma numerosidade de integrantes. Segundo a produção, 120 (cento e vinte) atuantes compõem o atual trabalho. É o Grupo Raízes superando seu próprio recorde: As Mulheres de Hollanda, com 100 pessoas no elenco. A sua proposta de oficina consiste em desenvolver a preparação de pretensos atores/atrizes concomitantemente à montagem de um espetáculo. Desta feita, a peça é uma remontagem da versão do próprio Jorge Lins para a chegada de Lampião ao Inferno.
"A Chegada de Lampião no Inferno", enquanto texto é pura fantasia, claro, e como tal, apenas ficção. A comédia apresenta Lampião desencarnando e chegando à porta do Céu, onde encontra obstáculos, em seguida, dirige-se ao Purgatório, onde é rejeitado. Somente no Inferno ele sente-se em casa, como já se sentia em vida, à custa do governo e dos coronéis nordestinos. A encenação aglomera no elenco um grande número de atores-alunos e tem a participação mínima de profissionais, que dão suporte à dramaturgia do espetáculo. Flávio Porto assiste a direção e interpreta alguns personagens. Eventualmente, o tempo de comédia escapa, na pessoa do protagonista, pelo menos; talvez, pela insistência no uso de preconceitos sociais.

Em Sergipe, é uma ousadia tamanha pôr em cena o volume contido no referido elenco, afora os técnicos e a produção. A boa utilização do palco associada à movimentação cênica das personagens demonstra a habilidade de Jorge respaldada em sua própria experiência vivida no Raízes em fases anteriores. Aqui em Sergipe, em décadas passadas, elencos numerosos assim eram vistos em montagens realizadas pelo Grupo Check-up, sob a direção de Bosco Scafs e pelo próprio Raízes, sob a direção artística deste precursor que, ora, eleva o próprio sobrepujamento.

Esta proposta artística, que reúne elenco e produção numa só meta, consegue, com astúcia, lotar o teatro Tobias Barreto por duas sessões seguidas numa só noite. E, por mais que se queira taxar esta prática como puramente comercial, não será possível, ela jamais poderá ser ignorada enquanto fazer teatral ou classificada como desprezível, sob qualquer pretexto. Pois, se atendesse apenas ao quesito diversão, - o que não é real -, ainda assim estaria em conformidade com a função originária do teatro. Pelo contrário, vai muito além. O resultado é simplesmente surpreendente. Mais uma vez. É Jorge superando expectativas. Salve-o!

A estreia deste espetáculo se deu no dia 19 de abril passado, às 19 e 21 horas no Teatro Tobias Barreto e foi reapresentado no último final de semana (27 e 28/04), no Teatro Atheneu, ambos em Aracaju. A próxima edição das Oficinas do Ator (contato@educar-se.com) já data de 13 maio a 31 de julho deste ano.

* Feliciano José é crítico de arte