DO MALECÓN DE HAVANA À NOSSA 13 DE JULHO

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Publicada em 05/05/2013 às 19:13:00

O Malecón era o bairro dos magnatas no prostíbulo americano do qual Havana era a capital. Em 1960, depois da revolução eles fugiram, deixaram os imóveis em Cuba e foram desfrutar os dólares que haviam precavidamente depositado nos bancos em Miami. Hoje, o bairro é um conjunto de casarões em ruinas, que se tornaram tugúrios habitados por centenas de famílias. Era o cartão de visitas da cidade, mas o governo socialista dos dois irmãos que desafiam o tempo, não parece dar importância aquele tão flagrante atestado de desmazelo. Em frente ao Malecón fica o mar caribenho, de águas frequentemente furiosas, açoitadas por vendavais e furacões. Já faz mais de um século que o calçadão fronteiriço ao mar foi construído sobre um sólido muro de contenção onde as vagas estouram com inaudita violência.  Caminhar sobre aquele calçadão é uma inusitada experiência de regressão, de volta aos anos cinquenta, desde que se solte a imaginação para visualizar uma paisagem apenas retocada.  Os palacetes estariam novos, e no azáfama da dolce-vita habanera, em frente a eles, estariam aqueles mesmos carrões americanos, quase os únicos que agora passam pela avenida litorânea, arrastando sofridamente o peso do tempo, e ostentando o milagre de uma manutenção feita com o improviso dos jeitinhos cubanos, que fazem deles uma espécie de ferros -velhos semi-novos. Não fosse o passar dos anos que as ruinas atestam, ali, nada teria mudado.
Uma onda forte ensopando o transeunte imaginativo, causa-lhe um susto, e o retorno à realidade.
O mar e o cais do Malecón se enfrentam, sem que nunca tenha sido necessário interromper o transito na avenida fronteiriça.

Aqui, na nossa Treze de Julho, (nome evocativo de uma daquelas rebeliões cheias de coragem e idealismo e sempre carentes de ideias, que vivemos intensamente nos anos 20 e 300,) o mar, dizem, anda a ameaçar não só a avenida, mas também as edificações, no nosso caso, na sua maioria novas, símbolos de uma prosperidade que se espalhou pela cidade expandida.  Quer o prefeito João Alves, naquela sua permanente ânsia obreira, realizar mais uma das suas audácias de cimento: um novo cais e um calçadão .  Segundo ele, e a Justiça já o corrobora, com a ordem de interdição, o mar, avançando em ondas que agora quebram sobre a murada, estaria causando uma perigosa infiltração que acarretará, em pouco tempo, o afundamento do asfalto, talvez até ameaçando as fundações dos prédios alinhados paralelamente. A ADEMA, requisitada a dar a licença ambiental, alega problemas técnicos que exigiriam algum tempo até serem devidamente analisados. Genival Nunes, o Secretário, é técnico abalizado e consciencioso. Há ambientalistas que estão na linha de frente em oposição à obra que, entendem desnecessária, e que se quer fazer a toque de caixa e repique de sino. O secretario Municipal do Meio Ambiente, o promotor público Eduardo Matos, é personagem de primeira linha entre os que se dedicam ao estudo e à preservação do meio ambiente, e com impaciência até, alega que a licença ambiental já poderia ter sido concedida, insinuando obstáculos resultantes de antagonismos político-ideológicos. O governador Marcelo Déda entrou na contenda sugerindo que  Eduardo Matos baixasse a bola, e que se mantivesse o diálogo e a apreciação técnica do problema.
Agora, com a rua já interditada, a questão é saber quem a opinião pública afetada pelo congestionamento irá apontar como culpado pelo transtorno.

Enquanto isso, para dirimir dúvidas e sanar divergências, se poderia solicitar um parecer conclusivo ao CREA, o conselho de engenharia, órgão isento e tecnicamente habilitado, sobre a situação real do cais da Treze de Julho e, principalmente, se existiria a alegada infiltração perigosa que estaria a ameaçar a verticalidade dos prédios, ou seja, correriam eles o risco de desabamento. Há quem afirme, inclusive engenheiros experientes, que, se alguma infiltração existir, seria mínima, e bastaria uma camada de concreto sobre a amurada para impermeabiliza-la, Outros engenheiros, também e igualmente responsáveis, garantem que o risco é iminente.

Diante do parecer do CREA, conclusivo e acatado, haveria então três alternativas: Fazer urgentemente a obra, por cima de qualquer outra consideração. Esquecer definitivamente a obra por ser desnecessária, ou, apenas, realizar a empreitada mais modesta, que seria a vedação dos pontos de infiltração onde eles existirem na amurada. Aliás, sobre aquele cais da Treze de Julho dizem engenheiros que andaram a vistoriá-lo que ele, construído faz muitos anos, tem uma sólida e resistente estrutura, bem diferente de outros que logo desabaram na Coroa do Meio, inclusive um, que incorporava a tecnologia nova, ¨o cais a gabião¨, destroçado aos primeiros impactos das ondas.   

Em matéria de cais, não temos tido boas experiências, basta que lembremos daqueles da Coroa do Meio, da Atalaia Nova, da praia da Caueira, da Sarney, e alguns outros.