Uma pulga atrás da orelha

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Flores e espinhos
Flores e espinhos

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Publicada em 10/05/2013 às 11:24:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Nem tudo são flores na abertura do Cine Vitória. A expectativa criada pelo funcionamento de uma sala de cinema popular em pleno Centro Histórico de Aracaju deixou os cinéfilos locais afoitos, mas para que a alegria não se converta em frustração a Secretaria de Estado da Cultura precisa redimir as dúvidas pendentes em relação à gestão do espaço.

Explica-se: O realizador Fábio Rogério, diretor do curta-metragem O arquivo de Ivan, estava com uma pulga atrás da orelha. Inconformado com a boa vontade manifestada pela Secretaria de Estado da Cultura, que abriu mão das próprias prerrogativas e cedeu a gerência do Cine Vitória para a Casa Curta-SE, ele resolveu fuçar os documentos publicados pelo Portal da Transparência e descobriu que o convênio celebrado entre Governo Federal e Estado de Sergipe impede a cobrança de ingressos no espaço, um conflito manifesto pela divulgação do Festival Varilux de Cinema Francês.

O texto é claro: "O projeto visa reativar a Sala de Cinema no Centro Historico da Cidade de Aracaju, na recuperada rua 24 horas. O Cine Vitória fará parte do Projeto Memoria em Rede, já desenvolvido pelo Ponto de Cultura Casa Curta-SE e funcionará, ainda, como sala de cinema popular, sendo vedada qualquer cobrança de ingressos".

Eu li o texto de trás pra frente, e não há como engolir a explicação fornecida pelos entes públicos: "A restrição sobre a cobrança de ingressos no Cine Vitória/Sala Avenida Brasil está relacionada ao projeto Memória em Rede, que prevê a exibição de filmes sobre a história do Brasil. Para estas exibições, que atingirão escolas da rede pública e público em geral, as sessões não poderão ser cobradas. Há na gestão do uso a previsão de execução dos eventos, quando o cinema reabrir".

Para Fábio Rogério, que entrou com uma ação questionando a cessão no Ministério Público, a cobrança é só a ponta do iceberg. Militante do audiovisual, cônscio dos próprios direitos no exercício da cidadania, ele não entende como a Secretaria abriu mão das oportunidades proporcionadas pelo funcionamento do Cine Vitória.
"No fundo essa discussão diz respeito ao papel exercido pelo Estado na cultura sergipana. Eu defendo o fortalecimento do estado brasileiro. Quanto mais forte for o estado, maiores as oportunidades para quem não tem dinheiro. Não tem nenhum cabimento o estado gastar dinheiro com reforma e equipamento e depois de tudo pronto entregar o espaço de mãos beijadas para a iniciativa privada. Eu não queria ver o cine vitória na mão de nenhuma ONG ou empresa, queria era o próprio estado gerindo aquela sala. Eu conheço relativamente bem o funcionamento de algumas salas de cinema geridas por secretarias de estado. O maior exemplo é o cinema São Luiz, em Recife: uma programação excelente com ingresso a R$ 2. A Secult de Recife tem um cinema com projetor de 35mm e tudo mais a preço de R$ 1. Eu, Fábio Rogério, cidadão sergipano, queria algo parecido em Aracaju".
O cineasta entrou com uma ação no Ministério Público.