Força e obstinação

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Pintura em Azulejo, de Vicente Coda
Pintura em Azulejo, de Vicente Coda

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Publicada em 19/05/2013 às 19:29:00

Com sinais aparentes cada vez mais fortes do rigoroso tratamento a que se submete para debelar um câncer no aparelho digestivo, o governador Marcelo Déda passou a contar desde a semana passada com uma equipe multidisciplinar para ajudar na sua recuperação e diminuir efeitos colaterais da doença. Composta de gastroenterologista, oncologista, cardiologista, clínico geral, fisioterapeuta e nutricionista, essa equipe faz o acompanhamento permanente de Déda, cuidando desde a reeducação alimentar até a tentativa de recuperação da massa muscular.

Agora uma neuropatia atingiu os seus membros superiores e inferiores, em função do efeito colateral de muitas drogas usadas na quimioterapia, o que limita os seus movimentos e cria dificuldades até para navegar na internet e usar o twitter, a sua rede social favorita - "sempre fui um bom digitador e agora só posso usar dois dedos" -, Marcelo Déda segue otimista tanto na evolução da ciência quanto na fé em Deus, mas evita traçar planos pessoais para o futuro. "Só Deus pode dizer qual será o meu futuro. Enquanto houver condições de tratamento, vou continuar lutando", resume.

Sobre a possibilidade de vir a disputar um mandato legislativo nas próximas eleições, diz que não tem como confirmar isso, porque vai depender do seu estado de saúde na época. Mas admite que se as eleições fossem realizadas este ano estaria no páreo, como candidato a deputado federal ou a senador. E mais uma vez apela para a fé. "Estou nas mãos de Deus".

Na semana passada, Déda manteve três dias de intensas atividades públicas, com a sanção do Proinveste, quando chorou e pediu para que lembrassem dele no momento de inauguração das obras; no fechamento das comportas da barragem Jaime Umbelino de Souza, situada no rio Poxim-Açu, em São Cristóvão, e que garante o abastecimento de água da Grande Aracaju pelos próximos 20 anos; e ao anunciar novos investimentos nas áreas de abastecimento de água e saneamento. Só reduziu o ritmo na quinta-feira, quando retomou os cuidados médicos, mas na sexta-feira já estava de novo no palácio para receber diretores da Vale, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, e nomear Oliveira Júnior como secretário interino da Fazenda, em função da cirurgia emergencial a que foi submetido o titular, João Andrade.
Se evita definir metas pessoais para o futuro - "o câncer é um dragão que não dorme nunca" -, o mesmo não ocorre em relação a administração estadual. Déda mantém reuniões quase diárias com a equipe - inclusive quando está em São Paulo fazendo sessões de quimioterapia, como ocorre nesta segunda-feira e é acompanhado pelos secretários de Governo e da Casa Militar - dando ordens, ouvindo o andamento de cada setor e determinando o que deve ser feito nos próximos dias. No decorrer desta semana, por exemplo, antes de tirar "15 ou 20 dias para descansar e se concentrar mais no tratamento médico", pretende convocar uma reunião do secretariado para definir novas metas e assinar o decreto instituindo a Comissão Estadual da Verdade.

Sobre essa comissão, ele faz questão de alertar que o seu papel será mais simbólico do que apurador, porque os crimes cometidos em Sergipe no período da ditadura militar - 1964 - 1984 - são da alçada federal, já que as prisões foram efetuadas pelas forças armadas e Polícia Federal e os presos ficavam no quartel do Exército e não em prisões estaduais. Até os desmandos cometidos durante a Operação Cajueiro, em fevereiro de 1976, quando 20 sergipanos foram presos e torturados no 28 BC, Milton Coelho ficou cego pelas torturas e responderam a Inquérito Policial Militar na Sexta Região, inclusive o atual vice-governador Jackson Barreto, só podem ser apurados pela Comissão Nacional da Verdade, que já está em andamento.

De qualquer forma, ele quer que a comissão estadual vasculhe os arquivos das secretarias, principalmente os da Segurança e da Educação para saber se houve perseguições e se estudantes secundaristas foram punidos por militância ativa contra a ditadura. O governador acha que a Comissão da Verdade poderia aproveitar a ocasião para sugerir aos deputados estaduais que restituíssem o mandato do ex-governador Seixas Dória, cassado pelo golpe, da mesma forma que já analisa a devolução simbólica dos mandatos de quatro deputados estaduais cassados pela mesma razão e na mesma época.

Num ritmo menos ativo em função da doença, Déda mistura tratamento médico com atividades políticas, administrativas e familiares. Está confiante de que tudo dará certo. A sua obstinação é um exemplo.

Reforma
O governador confirmou que nas próximas semanas completará a reforma do secretariado. Disse que o governo precisa levar em consideração os resultados das eleições municipais do ano passado, o que não foi feito até agora. Durante a visita do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, na última sexta-feira, Déda confirmou que o partido terá representação no primeiro escalão. Hoje o partido está representado por Jorge Araújo numa pequena subsecretaria. O indicado deverá ser o ex-vereador Fábio Mittidieri.

Problemas

A pretensão de Déda é comunicar aos secretários na reunião que deve ocorrer na quinta-feira as mudanças que serão feitas antes de anunciá-las a imprensa. Quando trocou Jorge Alberto por Silvio Santos na Casa e Civil, e Francisco Dantas por Pedro Lopes na Secretaria de Governo, Déda não conversou antes com os afastados. Que, por sinal, são secretários sem pasta. E poços de mágoa contra o governador,

Na vitrine
Edvan Amorim, o líder dos 11 partidos que formam o bloco de apoio a candidatura a governador do seu irmão, Eduardo Amorim (PSC), desistiu de continuar apenas como eminência parda e agora tenta conquistar notoriedade pública. Para isso, usa os microfones da sua rede de emissoras de rádio e a 'boa vontade' principalmente do radialista Gilmar Carvalho. Normalmente áspero e venenoso com seus entrevistados, Gilmar vira um cordeiro quando um dos Amorim entra em seu estúdio. A ponto de o próprio Edvan cobrar "perguntas mais duras, porque eu quero responder tudo".

Deu palanque
Quando decidiram, de última hora, apoiar a candidatura de João Alves Filho a prefeito de Aracaju, no ano passado, Edvan e Eduardo Amorim não pensaram na possibilidade de recuperação de imagem do ex-governador. Até então, o vice-governador Jackson Barreto era o candidato do governo e o senador Eduardo o candidato da oposição. Montaram o palanque para João Alves, que iniciou a campanha para voltar ao governo antes mesmo de tomar posse na PMA. Aliás, da mesma forma que fez Amorim em 2010. Confirmada a sua eleição para o Senado em primeiro lugar, caiu em campo para viabilizar a campanha de 2014.

Aliança
Nas entrevistas que concedeu na semana passada, Edvan admitiu que vai pedir o apoio de João Alves à candidatura do seu grupo - não fala abertamente no nome do irmão. Mas, ao mesmo tempo, admitiu a possibilidade de apoiar João, caso na 'hora H' as circunstâncias não sejam favoráveis ao seu grupo. Edvan se fortaleceu politicamente nos governos de João Alves, seu ex-sogro. E montou a sua máquina partidária tomando deputados do PFL, hoje DEM, após a candidatura do seu irmão Eduardo ter sido rejeitada para a prefeitura de Itabaiana.

Conselheira
O desembargador Luiz Mendonça deve apresentar na quarta-feira o seu voto-vista aos agravos regimentais impetrados pela Assembleia Legislativa e pela deputada estadual Susana Azevedo (PSC) contra a liminar que suspendeu os efeitos da sessão que elegeu a parlamentar como conselheira do Tribunal de Contas do Estado. O placar está 3x0 contra Susana, uma vez que os desembargadores Netônio Machado e Cezário Siqueira acompanharam o voto da relatora Suzana Carvalho.

Nova linha
Luiz Mendonça pediu vistas provavelmente para apresentar uma saída jurídica aos argumentos da relatora, favorecendo a indicação da deputada Susana Azevedo. É sempre seguido por Roberto Múcio e outros contrários ao grupo de Marilza Maynard. O resultado da votação, no entanto, é incerto. De qualquer forma quem perder promete levar o caso ao STJ.

A Navalha
João Alves Filho, Flávio Conceição e os outros réus da Operação Navalha devem ter ficado ainda mais preocupados com a decisão tomada na semana passada pela Corte Especial do STJ, que rejeitou todas as tentativas de embargos para barrar a denúncia feita pelo MPF, confirmada pela ministra Eliana Calmon, e já aceita pela corte. Os 12 réus vão a julgamento e respondem por todas as denúncias feitas pela relatora, inclusive formação de quadrilha.

Mensalão
Um dos mais importantes envolvidos no processo a partir da Operação Navalha teme que a rigidez adotada pelo STF no julgamento do chamado 'Mensalão do PT' se transforme em norma para o julgamento de denúncias de corrupção nos tribunais superiores.

Ruas do interior
Ao permitir o estacionamento desordenado nas ruas centrais de Aracaju, a SMTT está transformando a capital numa grande cidade do interior. Com veículos parados dos dois lados das vias fica impossível qualquer ordenamento do trânsito. Quando Samarone impediu o estacionamento nas principais ruas, os comerciantes chiaram dizendo que iam quebrar e o prefeito recuou. Na verdade, os comerciantes é que utilizam as vagas para o estacionamento dos seus veículos e jogam os clientes para os estacionamentos pagos.