Um ruminante com o rabo de fora

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A pata de um ruminante nunca pesou tanto
A pata de um ruminante nunca pesou tanto

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Publicada em 26/06/2013 às 15:20:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Vazio Tropical, oitavo disco do alagoano Wado, deveria carregar a assinatura do produtor convidado para meter o bedelho na história. Não é a primeira vez que o hermano Marcelo Camelo toma o trabalho dos outros para si - em conversa de marido e mulher, o adágio ensina e Mallu Magalhães lembra em cada entrevista concedida, qualquer intromissão é arriscada. Nas sobras reunidas por Wado em sua empreitada mais recente, contudo, quase não se percebe a voz do cantor. A pata do ruminante nunca pesou tanto.

Camelo deixou o rabo de fora. A pretensão jamais assumida de falar por sua geração é a única explicação plausível para a sem cerimônia com que o carioca criado a leitinho com pera reduziu a pesquisa musical de Wado a uma coleção açucarada de ruídos e lamentos.

É certo que Vazio Tropical também possui momentos nos quais Wado acena com as mãos limpas, sem subterfúgios, sem cartas escondidas na manga, honesto como de costume, mas os vislumbres (gritos mulçumanos, argelinos, colombianos e palestinos) são sufocados pela avalanche de referências melancólicas ao próprio trabalho espalhadas por Marcelo Camelo ao longo das 11 faixas do disco. A viola blasé define.

Eu ainda não sou capaz de vaticinar: Vazio Tropical presta. Vazio Tropical não presta. Talvez seja um bom sinal. Arejados, os melhores momentos do disco (Flores do bem é uma canção comovente!) sinalizam que tanta dor vai passar. Tudo o que Wado e o próprio Marcelo Camelo já fizeram por determinada vertente da música brasileira - celebrada nos Ipod's por uma molecada moderninha, doida para encontrar uma maneira nova de estar no mundo -, recomenda o registro. Só não há razão pra enxame.