DOS CAVALOS DE FIGUEIREDO AOS JATINHOS DE RENAN E HENRIQUE

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Publicada em 09/07/2013 às 11:57:00

Quando o general Ernesto Geisel, saído da presidência da Petrobras, preparava-se para assumir a Presidência da República e ia compondo o seu ministério, deparou-se logo com a primeira dificuldade. Seu irmão o general Orlando Geisel era Ministro do Exército. Oficial que se identificava com a truculência da ¨linha dura¨, facção radical das forças armadas, ele comandara a pesada repressão durante os quatro anos do general Garrastazu Médici, e não demonstrava vontade de abandonar o posto. O irmão presidente o decepcionou escolhendo outro general para Ministro. Orlando Geisel conformou-se, mas resolveu continuar morando no Palácio Duque de Caxias, residência oficial no Rio de Janeiro dos ministros do exército. Orlando Geisel, mesmo vestindo pijama de militar reformado, lá ficou vivendo com a família, desfrutando de todas as mordomias , e recebendo, às expensas dos cofres públicos, o longo tratamento da enfermidade que o levou à morte. Já um outro general, o último deles escolhido para presidente, João Batista Figueiredo, era vidrado em equitação.

Montava todos os dias, praticava salto, e de tanto conviver nas baias, até disse que preferia o cheiro dos seus cavalos ao cheiro do povo. Esse, pelo menos, era sincero. Figueiredo era ministro-chefe do SNI - Serviço Nacional de Informações - o imenso aparato bisbilhoteiro que invadia a vida pública e privada das pessoas. O general instalou-se durante muito tempo na Granja do Torto, e lá também viviam os seus cavalos, que gostavam de comer aveia .  Na presidência, continuou morando na Granja do Torto para não sair da proximidade dos seus cavalos, todos alimentados e tratados com o dinheiro do contribuinte. 

Figueiredo, nos quase quatro anos à frente do SNI, cuidou de investigar a vida dos políticos, dos servidores públicos, dos empresários, e muitos deles, carimbados como corruptos , foram expostos à sanha persecutória do regime. Já o general Orlando Geisel, morador do Palácio Duque de Caxias, deu plena sustentação à ditadura que, segundo ele, tinha como principal meta livrar o Brasil de corruptos e subversivos. Mas os dois não se constrangiam, um, em viver à custa dos cofres públicos em um palácio, e o outro, a alimentar e tratar suas exigentes montadas com dinheiro da mesma procedência. Iniciada a abertura, relaxada a rotina repressiva, restabelecida as eleições diretas para governadores, decretada a anistia, suspensa a censura, Figueiredo participava de um ato político em Florianópolis, e um grupo de estudantes começou a vaiá-lo. Ele não perdeu o humor até que um deles gritou: ¨ Figueiredo, Figueiredo dos seus cavalos o povo não tem medo¨. Nem os seguranças conseguiram segurar o general furioso que desceu à rua para brigar com os estudantes. Eles, prudentemente correram.

A ditadura que agonizava, enfim, e felizmente, morreu. Entre os seus generais presidentes, pelo que se sabe, só Costa e Silva tinha gostos que iam bem além da mordomia equina. Amante de um carteado, ele, principalmente quando foi comandante do II Exército, tornou-se conhecido pelas dívidas feitas nas mesas de jogo, pelos cheques voadores espalhados, até quando, finalmente, lhe socorreu o providencial amparo de uma velha e riquíssima senhora, também frequentadora da tavolagem, que vinha a ser, exatamente, a mãe de um engenheiro quase desconhecido, chamado Paulo Maluf, logo nomeado prefeito da cidade de São Paulo. Nem o mais ousado dos agiotas imaginaria um retorno tão excepcional para o capital utilizado.

Instalada a equivocadamente chamada Nova República, os condestáveis e os seus pajens tornaram-se ginetes de outras cavalgadas, bem mais destemidas. Houve o tropel nunca interrompido em direção aos segredos dos cofres da pátria amada. A velha mistura entre público e privado exigia algo mais do que cavalos, e entre outras coisas se fez corriqueiro o uso desordenado dos jatinhos. Feito governador do ainda território federal de Fernando Noronha, o jornalista Fernando Mesquita recepcionava, quase todas as semanas, ministros, familiares e amigos, que nas asas da Força Aérea Brasileira chegavam para o animado weekend. Com FHC, a ilha fascinante que deixara de ser território federal, não desativou a Casa de Hóspedes localizada num privilegiado local, de onde se podia ver o Mar de Fora, na direção da África, e o Mar de Dentro, na direção do Brasil, de onde escapavam os fatigados ministros sempre, nos jatos da FAB, deixando longe as canseiras.

A farra dos jatinhos começou a ser denunciada, e os seus usuários se viram obrigados a um certo recato.
Hoje, com o povo nas ruas em indignada fúria contra os descaminhos e equívocos do poder, pensava-se que o simples recato fosse substituído pela obrigatoriedade do respeito ao povo.
Mas que nada, os velhos vícios são resistentes.
Encontrava-se o presidente da Câmara Federal Henrique Eduardo Alves, em Natal, sua terra, quando resolveu atender aos familiares e amigos que queriam assistir, no Maracanã, o jogo Brasil e Espanha. Lá se foram todos num jato da FAB.

Já o presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, saiu da sua Maceió, também num avião da Força Aérea, e foi a Porto Seguro, na Bahia, participar da festa do casamento de um casal amigo No dia seguinte, após a ressaca da festa, retornou a Brasília. Para ele, nada de errado aconteceu, como presidente do Senado, alegou, tem direito aos privilégios considerados ¨representação oficial¨. Certamente representava o Senado na festança do casal festejador. Henrique Eduardo Alves inventou uma audiência que teria com o Prefeito Eduardo Paes, do Rio de Janeiro, estranhamente num domingo, e dia do jogo, mas devolveu aos cofres públicos mil e 700 reais, que seriam correspondentes às passagens da sua despreocupada comitiva.

O ministro da previdência Garibalde Alves, aquele que tem sempre no rosto um sorrisinho inocente de coelhinho, também andou aprontando . Foi de Fortaleza ao Rio assistir o final da Copa das Confederações num jatinho da FAB. Levou parentes e aderentes, entre eles um grande empresário. Todos já anunciam agora a devolução aos cofres públicos do que foi gasto. O cálculo porem é inexato, até inexpressivo. E por que todos não fazem melhor, enchendo-se de vergonha e devolvendo os seus cargos? Por aqui perto, a Mesa da Assembleia nem pensa em devolver aos mirrados cofres de Sergipe, os 200 mil reais pagos ao ex-ministro do Supremo, Sepúlveda Pertence, para que faça a defesa dos interesses da deputada Susana Azevedo .

É preciso agora que os jovens manifestantes nas ruas ouçam os relatos de velhos que , quando jovens, enfrentaram nas ruas a cavalaria da ditadura, para que, diante da farra impudica dos jatinhos ,e outras farras que continuam não venham a se sentir tentados a considerar ingênuos, aqueles que transformaram cavalos em pensionistas do Estado, ou fizeram de prédios federais residências vitalícias.