A DESCOBERTA DA DEMOCRACIA

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Publicada em 09/07/2013 às 12:02:00

A História do Brasil registra, numa sucessão de eventos, a trajetória de uma ideia em busca de afirmação. Não foi um percurso exemplarmente cumprido, sequer traçado com a clareza da escolha, nem mesmo a coerência das motivações. A marcha da democracia no Brasil tem sido um labirinto de contradições. Talvez por isso mesmo, e embora exaltada, aquela concepção de ¨governo do povo, pelo povo e para o povo¨, sempre juntou na mesma praça em delírio retórico, ou no mesmo quartel em ânsias de rebelião, os equívocos das escolhas e as incoerências das ações. Aquelas senhoras transidas de sentimentos patrióticos que dedilhavam terços nas marchas ¨Com Deus pela pátria e pela família¨ pouco antes do epílogo final do golpe de 1964, definiam-se todas, como sendo a intimorata barreira levada às ruas das cidades brasileiras para deter o avanço do comunismo que ameaçava a democracia brasileira. Logo, elas estariam transidas de um outro sentimento. Ao ouvirem aquelas vozes cavernosas que anunciavam cassações, prisões, nos estertores da liberdade, as senhoras dedilhavam os terços, entravam numa espécie de histeria, as insatisfações do corpo disfarçadas ou aplacadas pela inconsequente adesão ao autoritarismo. Mas, nem uma só entre elas deixaria de se definir, orgulhosamente, como democrata pura. Os políticos que alertavam para as ameaças à democracia, logo decoraram o hino de exaltação aos generais ¨salvadores das instituições¨. Democracia e hipocrisia não se casam bem, e desse desencontro visceral, nascem ditaduras, ou, um dia, quando a hipocrisia é identificada algo de salutar acontece.

As ruas que clamam nos fazem descobrir as virtualidades que a democracia oferece quando a presunção que é o pior vírus a infectar o poder, termina por desmascarar o equivoco, ou a hipocrisia de acreditar na plenitude democrática com o povo mudo.
Se um dia transformar-se em realidade a utopia da plenitude das satisfações humanas, poderemos, quem sabe, conviver com a paralisia social, onde somente se ouvirá a chatice uníssona de um SIM. Talvez essa concordância absoluta torne desnecessária a democracia. A humanidade se reduziria a um bando de idiotas em abobalhado êxtase de unanimidade.
Enquanto isso felizmente não acontece, diante da falsa imagem do melhor dos mundos, as ruas que dizem NÃO fazem a descoberta da democracia ampla, geral e irrestrita, desde que não haja, no meio, a fúria selvagemente totalitária dos arruaceiros.