Bota fora da Cabedal no Che Petiscaria

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Sem choro, nem vela
Sem choro, nem vela

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Publicada em 24/07/2013 às 02:54:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Quarenta e cinco minutos de malemolência no Projeto Verão 2010. Foi o que me bastou para gritar aos quatro ventos: A Cabedal era a maior promessa da música sergipana naqueles dias. Infelizmente, o tempo não é um deus gentil. Nem com os meus cabelos, cada vez mais escassos, nem com a rapaziada da banda, que tomou rumos diferentes e pede a saidera esse fim de semana.

De acordo com um comunicado distribuído pela banda com o auxílio das redes sociais, não há lamento na despedida. O pau vai comer na Che Petiscaria. "Tocar a banda pra frente proporcionou muitos encontros inesquecíveis para todos os integrantes que passaram pela Cabedal (...). A banda vai tocar um repertório E-N-O-R-M-E como forma de marcar esse último encontro".

Com o diabo na munheca - O primeiro trabalho da Cabedal provocou uma reação parecida com o bulício suscitado por suas aparições públicas, invariavelmente festejadas com uma exultação sintomática, que revelava a disposição com que a cena local acolhia novos personagens, ao mesmo tempo em que atestava a importância do momento singular vivido por nossa música.
"O novo pastiche", primeiro e único disco da Cabedal, guarda nuances preciosas, que passavam despercebidas no meio da farra, quando os acordes carregados de suingue colocavam a galera pra balançar embalada pela urgência de vida impregnada nas canções de Saulo Sandes.

A primeira coisa que chama a atenção no disco, contudo, é a diversidade de gêneros distribuídos entre as 10 faixas que o compõe. Samba, frevo, rock, pagode, e o que mais der na telha dos caras, sempre guarnecidos por uma divisão rítmica característica - que algumas vezes remete sem querer, com muito recato, ao fraseado particular de Jackson do Pandeiro -, e por um timbre vigoroso, que transpira das guitarras sem ofuscar o volume do baixo bem marcado, a precisão da bateria e o colorido emprestado por uma percussão sempre oportuna, embora discreta.

A segurança esbanjada pelo sexteto responsável pelo registro - Saulo Sandes (vocal e guitarras), Alexandre Marreta (guitarras), Manuel Carvalho (Baixo), Ravy Bezerra (Bateria), Adriano Cavalcanti (Percussão) e Diego Menezes (Percussão) - impressiona. Músicos jovens, os meninos demonstraram uma intimidade com seus instrumentos capaz de dar inveja em qualquer casal idoso, farto dos esforços exigidos pelos exercícios do amor.

Parece que os caras amarraram o diabo na munheca. Além das letras inspiradas, canções como "Emplastro brasileiro", "Menina", "O girassol do teu vestido" e "Batucada" possuem uma pegada irresistível, cujo ápice alcança nossos nervos com a explosão do Wah-Wah de "A consolação".
"O novo pastiche" provou, sem dar chance de contestação, que é possível enterrar os pés na aldeia sem ignorar a circunferência do mundo. Ao seguir na direção apontada pelas cenas mais fecundas do cenário independente brasileiro, se apropriando dos elementos presentes na tradição musical brasileira para reescrever a história a seu modo, a Cabedal não apenas dialogou com seus pares, mas encarnou uma nuance do fazer musical que está se tornando, felizmente, cada vez mais nossa.