De alma esfregada

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Publicada em 27/06/2012 às 11:15:00

* Amaral Cavalcanti

Ando enjoando de festa. No carnaval do Pré-Caju, por exemplo, balanço minha latinha tão tristemente, tão fora da euforia geral que se mal não parece, desencoraja a mim e a quem me acompanha. Não gosto de mega eventos, não gosto desta história de que "se o povo gosta" toca baboseira num palco enorme e basta bater a matraca que a praça se enche de mel com merda. Enfim, o populismo cultural não me interessa.
Venho dos cafundós da festa, acostumado a ver o São João sentado nas calçadas, as cadeiras da família em torno da fogueira soltando estrelinhas. Na rua, cada qual no seu fogo, cuidando dos seus bêbados, xingando buscapés, falando mal da filha do vizinho enquanto traça uma lapada de manauê. Sou desse São João sem TV e creio, sinceramente, que gastaríamos melhor distribuindo o fogo com muito mais gente, incendiando a vocação festiva da cidade pelas ruas e bairros. Como era antigamente.
Mas, enfim...saudade sim, saudosismo não. Eu não sou besta a ponto de ficar de fora do que a cidade faz, seja lá como o faz para celebrar sua diversidade. Vó Maroca não vai ao Forró Caju, excluída que foi. Prefere ficar sentadinha na janela, vendo desabar em melancólicos tições a solitária fogueira que acendera na calçada em louvor ao santo, mas eu vou, exigente e atento, ver o que acontece na festa municipal.  Como qualquer intelectual - pretenso guardião da cultura do povo - rasco com meus botões e chego a manifestar aos mais íntimos os meus divinos reparos: - "tal artista não devia; prefiro o tamanco ao tênis; só tem bolo de puba nos camarotes...", mas no final é certo: volto pra casa suado, bambo de cor e prazer.
Cultura, caldo, caldeirão derramando. Isto sim, é o que me interessa...
Agora mesmo, vi no Forró Caju, uma multidão se roçando num caldeirão de prazeres, menininhas cheirosas a dois dedos do perigo, dividindo o mesmo metro quadrado com a euforia malandra dos moleques. Bundinhas salientes, quebra cocos sutis, feios e belos se roçando no culto à alegria do forró, ao direito de ser feliz no esfrega-esfrega ques nos restou do São João.
Fiquei de alma esfregada. E por que não?

* Amaral Cavalcante é poeta e jornalista