Do jeito do Rei

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Publicada em 27/06/2012 às 11:16:00

* Antônia Amorosa

Quando me despedi dos palcos juninos em Junho de 2010 não imaginei naquele momento que pudesse assistir uma parte do meu sonho realizado dois anos depois. O quadro atual ainda não está a contento, mas o envolvimento do povo em torno das comemorações do centenário de Luiz Gonzaga tem sido algo tão emocionante que merece registro. Possivelmente a falta de recurso do governo somado ao centenário do Rei serviu de excelente composição para que a maioria das programações fosse preservada no estilo tradicional, e que deveria ser sempre, com ou sem dinheiro. E não seria este o papel cultural de todos? O envolvimento da grande massa em torno do momento que está sendo vivido é visível na maioria dos espaços. Do taxista ouvindo Gonzaga no volume alto a contratação de trios pés de serra para festas particulares, o ano está marcado pelo gesto de  respeito a uma história que não é apenas de Luiz Gonzaga, mas da nossa gente nordestina - dos que ficaram em sua terra, aos que partiram para outros Estados brasileiros, a exemplo do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília na década de 4050. As bandas que arrastam multidões, apesar de continuar exercendo o mesmo papel, perderam força diante da força do Rei.
Deixar de defender uma bandeira que carreguei como outros colegas também o fazem, durante 26 anos da melhor fase da minha vida, não foi fácil. Não é mesmo fácil calar a voz num período em que sempre estive cantando; também não é fácil optar por ganhar menos para defender uma causa em prol daqueles que ainda virão. Mas eu acredito nesta luta. Acredito neste projeto. Acredito que Sergipe ainda não enxergou por completo, o imenso potencial que possui podendo ser o único Estado brasileiro a reunir todas as diversidades que envolvem as tradições juninas e que já foi descaracterizada em muitas regiões. Quadrilhas, trios pés de serra, forrozeiros, fogos, fogueiras, decoração, comidas típicas, folclore, barco e marinete, barcos de fogo estão entre as atrações que Sergipe pode oferecer sem nenhum constrangimento. O que Sergipe precisaria de outras terras que não possua no meio de nós? Quando entenderemos que poderemos mostrar ao Brasil o que temos, com a cara da nossa gente, dos nossos talentos, no nosso jeito de ser? O que é preciso ser feito para que os programadores de rádio, os educadores, os líderes midiáticos, os administradores públicos e os empresários compreendam isto? Será preciso criar uma lei para que o certo se cumpra?
Alguns argumentaram que o que vale é a praça lotada, mas o povo não deixa de ir às ruas, não deixa de participar de festas populares porque este ou aquele artista deixou de atuar. A manifestação popular do encontro festivo é inerente ao movimento de massa. Cabem as autoridades, aos educadores, aos artistas e ao povo entender o que está sendo defendido e por que. Não confundir as tradições rítmicas do norte com o nordeste, e não isolar a linguagem musical do povo nordestino em detrimento de outra. Isto é uma violência contra a cultura e sua preservação. O novo só pode ter acesso ao tradicional quando soma, ao invés de eliminar ou excluir o que deveria ser destaque, ou até mesmo ocupar um espaço que deveria ser um direito sagrado de quem defende a verdadeira tradição.
Ausentei-me por uma causa, para defender uma bandeira e para que ninguém argumentasse que minha luta tinha como objetivo aumentar o número de shows a meu favor. Saí do circuito para lutar por ele com outras armas. Sinto uma falta imensa porque amo a cultura popular, especialmente o forró. Mas a dignidade não tem preço. E se ela tem que ser paga de um jeito que não seja feito de outro.
Mas, só o fato de ver o Rei imperando como merece, não seria nada mal se este mesmo Rei comemorasse 100 anos todo ano. Seu Centenário fez o milagre de acordar o bom senso da maioria. Que bom seria se fosse todo dia...

* Antonia Amorosa é cantora, jornalista.