Futebol, amém

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Publicada em 27/06/2012 às 11:17:00

Já é costume dizer que futebol tem muito a ver com guerra. Afinal são duas tropas enfrentando-se, há artilheiros, atacantes, defesas, bombas etc... Mas futebol também é muito parecido com religião. Os clubes têm crescido como instituições em que as pessoas depositam sua fé

* José Roberto Torero

Já é costume dizer que futebol tem muito a ver com guerra. Afinal são duas tropas enfrentando-se, há artilheiros, atacantes, defesas, bombas etc... Mas futebol também é muito parecido com religião.
Obviamente, os clubes são os deuses do futebol. E, assim como acontece com os deuses, quem gosta de um, não gosta dos outros. Mesmo que sejam parecidos. Aliás, quanto mais parecidos e próximos, maior o ódio.
Muçulmanos e judeus são mais ou menos como colorados e gremistas. E católicos e protestantes não ficam muito a dever a cruzeirenses e atleticanos.
Até mesmo na Bahia, local em que as religiões se misturam, um cisma começa a acontecer. Antigamente torcedores do Vitória e do Bahia podiam pegar o mesmo ônibus para o estádio. Mas hoje em dia já não há este sincretismo entre as torcidas.
Curiosamente há alguns torcedores politeístas, que gostam de mais de um time. Assim como os hinduístas, eles têm uma miríade de deuses. Às vezes este politeísmo tem uma certa lógica. Por exemplo, há quem goste do São Paulo em São Paulo, do Fortaleza no Ceará, do Fluminense no Rio e do Santa Cruz em Pernambuco só porque todos estes times são tricolores.
Mas há uma turma de politeístas que não tem lógica nenhuma. Eu mesmo, quando era criança, torcia para um time diferente em cada país, e ia acompanhando meus clubes semanalmente pela revista Placar. Assim, além de torcer para o Santos no Brasil, eu era Liverpool na Inglaterra (por causa dos Beatles), Borussia Moenchengladbach na Alemanha (porque tinha um nome muito comprido) e AZ 67 na Holanda (porque tinha nome muito curto).
As igualdades não param por aí. Assim como as religiões têm santos ou deuses menores, os clubes também têm seu panteão de ídolos. Pelé é praticamente um Jesus Cristo e Maradona é um Maomé. Mas há outros, muitos outros. Zico no Flamengo, Ademir da Guia no Palmeiras, Neto no Corinthians, Romário no Vasco, Rogério Ceni no São Paulo, Falcão no Inter, Cerezo no Galo e Tostão no Cruzeiro podem ser considerados semideuses.
E há milhares de deuses menores. Sem esforço, eu lembraria de cinquenta do meu time. Talvez cem. Os corações dos torcedores são muito mais vastos. Tanto que até Tupãzinho, que tem um nome emblemático, possui um lugar de destaque no altar corintiano.
Os modos de adoração também são parecidos. Há, para começar, um hinário completo. As torcidas têm, assim como as igrejas, várias músicas que são entoadas como prova de fé na vitória e demonstração de adoração. E o hino oficial é mais ou menos como um Pai Nosso.
Assim como temos a bandeira do divino, temos as bandeiras do clube. E muitas vezes a camisa do time é chamada de manto sagrado (mesmo que tenha um monte de propagandas).
Os clubes também têm seus cardeais, que são os diretores, e os papas, que são os presidentes. Alguns, inclusive, ficam tanto tempo no poder que parecem mesmo terem cargos vitalícios.
Enfim, para o bem e para o mal, o futebol vem ficando cada vez mais parecido com a religião.
Talvez isso aconteça porque as religiões venham perdendo sua credibilidade, e talvez porque os partidos políticos também estejam ficando com ideologias muito difusas (basta ver o aperto de mão entre Lula e Maluf). Assim os clubes têm crescido como instituições em que as pessoas depositam sua fé.
No futuro, não é impossível que fiel seja uma palavra usada apenas pelos torcedores do Corinthians.
* José Roberto Torero é formado em Letras e Jornalismo pela USP, publicou 24 livros, entre eles O Chalaça (Prêmio Jabuti e Livro do ano em 1995), Pequenos Amores (Prêmio Jabuti 2004) e, mais recentemente, O Evangelho de Barrabás. É colunista de futebol na Folha de S.Paulo desde 1998. Escreveu também para o Jornal da Tarde e para a revista Placar. Dirigiu alguns curtas-metragens e o longa Como fazer um filme de amor. É roteirista de cinema e tevê, onde por oito anos escreveu o Retrato Falado.(www.cartamaior.com.br)