A QUEDA DA ATRIZ, AS CALÇADAS E O TREM BALA

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Publicada em 29/07/2013 às 23:03:00

Vez por outra, episódios corriqueiros ou incomuns, quando chegam às manchetes servem para balançar a letargia conformista diante de mazelas ou impropriedades que resvalam da inércia, ou até da insensata sofreguidão do poder publico, e desabam sobre a sociedade como se fossem inevitáveis castigos. As pessoas acostumaram-se a conviver com descasos, erros, e até a permanente indiferença. Até o dia em que se ouviu nas ruas a voz da cidadania em processo rápido e tumultuado de afirmação. Quantas vezes pessoas enfiando os pés em buracos esborracharam-se na rua e saíram caladamente, feridas e conformadas? Nesses tempos, tão tempestuosamente imprevisíveis, uma atriz famosa, despenca numa malcuidada calçada da glamorosa zona sul carioca e sai seriamente machucada. Beatriz Segall no dia em que completava 84 anos foi a vítima de um descaso que se revela em todas as cidades brasileiras. As prefeituras se omitem, os proprietários nem se dão conta da responsabilidade que lhes cabe, e pelas cidades as calçadas estão a revelar um, entre tantos outros aspectos da nossa inquietante incivilidade.

Façamos um passeio rápido pela nossa Aracaju. Comecemos por um bairro abastado, a orla da 13 de julho. Ali, ao longo de quase 2 quilômetros a calçada é uma tira estreita que quase não dá para duas pessoas andarem lado a lado. Um cadeirante por ela não poderá transitar, há ainda postes fincados no meio. Já na avenida Heráclito Rolemberg ao lado do aeroporto, simplesmente não há calçada, existe um matagal sobre a terra que as chuvas transformam em lamaçal. Por que a INFRAERO não é obrigada a construir uma calçada decente?  É simples: aqui as pessoas ainda não agem como Beatriz Segall, que colocou a boca no mundo postou no facebook seu rosto fortemente arroxeado e anunciou uma ação judicial contra a Prefeitura do Rio.

Já na Espanha um trem muito veloz, mas que não chega a ser o ¨Bala¨, descarrilou numa curva. O acidente, um dos piores ocorridos no país que possui um moderno sistema ferroviário, causou mais de 80 mortos. Os trens rápidos espanhóis que alcançam 250 quilômetros por hora, estão longe dos seus congêneres mais avançados, os autênticos trens-bala, franceses, japoneses, e chineses, que cruzam os trilhos a mais de 400 por hora. Aqui nas imensas extensões brasileiras, não temos ainda que nos preocupar com trens velozes, os nossos, os poucos que temos, são ronceiros, nem chegam aos 80 km, apenas mais rápidos do as máquinas movidas a vapor, usando lenha ou carvão que aqui começaram a rodar em meados do século dezenove, durante o Segundo Império, quando as ferrovias que seriam abandonadas um século depois começaram a interligar o país. No quesito transporte ferroviário, paramos no tempo. Aqui em Aracaju a quase arruinada Estação da Leste Brasileiro, é o testemunho do que precisamos fazer se quisermos sair em busca do tempo perdido. Existe a necessidade urgente de ampliar a nossa diminuta malha ferroviária, de nela por a rodar trens mais modernos, mais rápidos, temos estradas de ferro em construção há mais de 20 anos e ainda longe da conclusão.  Em relação às ferrovias, até nos daríamos por satisfeitos se viéssemos a ter em 2020 um sistema comparável ao que possuíam a Europa e os Estados Unidos há 40 anos. Apesar disso, a desmesurada ideia do ¨trem- bala¨ continua na agenda do governo federal que insiste na licitação, já anunciando que excluiu da disputa a empresa espanhola que construiu o trem rápido. O ¨trem- bala ¨ brasileiro se deslocaria a 400 quilômetros por hora apenas entre São Paulo e Campinas, servindo quase somente para transportar passageiros. Para tão pouca e duvidosa utilidade, há quem assegure que não se gastará menos de trinta bilhões.
Querem dar um salto para o futuro a bordo do trem- bala. Mas, pelo visto, ele descarrila antes mesmo de entrar nos trilhos. Parece mais uma viagem pela irrealidade quotidiana.