Já não se fazem bandas como antigamente

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Um OVNI que sobrevoasse a Praça da República
Um OVNI que sobrevoasse a Praça da República

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Publicada em 02/08/2013 às 03:14:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Secos & Molhados (1973), o disco que colocou a personagem rebolenta e desconcertante de Ney Matogrosso no meio do mundo, acabou de completar 40 anos no último 01 de agosto. Com uma mistura rara de rock, psicodelia, MPB, música folclórica portuguesa e violões "folk" - a descrição é do jornalista Andre Barcinski -, o registro alcançou um sucesso inesperado e, apesar da poeira acumulada sobre a curiosidade de uma indústria conservadora por natureza, doida pra tirar leite de pedra e se esbaldar com a descoberta da pólvora, acabou preservado como um dos maiores clássicos da discografia brazuca.

Nesse caso, um rasgo de nostalgia é perfeitamente justificável. Já não se fazem bandas como antigamente. Não estou entre os que buscam refúgio nas certezas aplainadas de outrora. A matéria de minhas cismas é alimentada quase sempre pelo vacilo do momento. O império do jabá e dos latifúndios midiáticos, contudo, exilou qualquer impulso de afirmação criativa bem pra lá de Marrakesh. As maiores apostas, as fichas de valor mais alto, são empenhadas na sorte dos sertanejos universitários que desaconselham os bares. Por isso o underground.

Hoje, o rádio não seria veículo para os trinados de um Ney ainda menino. Se João Ricardo quisesse colocar suas composições à prova, teria que passar o chapéu até ficar com os braços duros. Desafiadoras, suas canções (as interpretações aqui tratadas alçam o vocalista à condição de autor) não encontrariam ambiente propício à massificação que resultou na venda de 1500 cópias em apenas uma semana.

Pode ser que, pra muita gente, de toda a experiência proporcionada pela reunião da banda Secos & Molhados - que já foi descrita como aparição de um OVNI que sobrevoasse a Praça da República -, reste apenas o espanto de uma capa esquisita. Eu culpo a programação de nossas rádios. Sinal dos tempos.