O que será escrito em agosto

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 03/08/2013 às 03:06:00

Ainda é prematuro saber se efetivamente avançamos e mudamos após as manifestações nas ruas. Mas descobertas estão registradas: os monopólios da mobilização foram derrubados; ficaram expostos vários tigres de papel; a rebeldia funda novo ciclo de reflexão e de organização política

* Hamilton Octavio de Souza

Entramos em agosto com a agenda cheia de manifestações, pelo terceiro mês consecutivo. E a força das ruas muda o jogo político a todo o momento, nos atores em cena e no peso das forças em disputa, nos discursos e na criação do novo. É claro que se avança na politização, na conquista do espaço público, no saldo organizativo e nas formas de luta. Tudo é experiência e tudo é aprendizado, para a grande maioria que descobriu o sentido maior da ação coletiva.

Já é possível registrar mil lições em 60 dias de reivindicações e protestos. Mas ainda é prematuro saber se efetivamente avançamos e mudamos, se ganhamos e se consolidamos as conquistas. Mesmo porque a história não acabou, o assunto não morreu, tudo ainda depende do que vai acontecer nos próximos dias e meses, nas ruas e nos palácios, nas ações do que transforma e nas reações da ordem estabelecida.

As descobertas estão registradas: o descontentamento existe por mil razões; as vozes das ruas tiveram de ser ouvidas; os monopólios da mobilização foram derrubados; ficaram expostos vários tigres de papel; a rebeldia funda novo ciclo de reflexão e de organização política; a inclusão das novas gerações se impõe apesar da resistência conservadora das oligarquias e dos grupos dirigentes acomodados nos aparelhos do poder.

É preciso alinhavar os tópicos desse presente - que começou há bastante tempo, deu as caras em junho e não tem data para ingressar no passado.

1) As ruas pedem mais atenção das autoridades e mais investimentos dos governos em políticas públicas de transportes coletivos, educação, saúde, moradia e segurança; querem ações concretas, já, sem mais delongas; querem também o fim da corrupção e das farras com o dinheiro público.

2) As ruas pedem que o Estado respeite as liberdades democráticas para todos, que se garanta o direito de manifestação e que a polícia pare de reprimir os pobres, os trabalhadores e todos aqueles que postulam mudanças nos costumes, como a descriminalização das drogas, direito ao próprio corpo etc.

3) O descrédito dos políticos e dos partidos atinge indistintamente todas as instituições e reforça a tendência contra o atual sistema representativo e pelo aumento da abstenção eleitoral, os votos brancos e nulos e o voto útil nos candidatos menos piores, por falta de alternativas confiáveis e coerentes entre discurso e prática.

4) As manifestações chamam a atenção para a inoperância dos governos em relação aos problemas que causam sofrimento reiteradamente às populações urbanas, em especial no que diz respeito à precariedade dos serviços públicos.

5) As manifestações aguçam a visão crítica da população e ampliam a crise de credibilidade dos governantes, nos níveis municipal, estadual e federal; tanto é que todas as pesquisas de opinião registram a baixa popularidade dos governantes.

6) A queda de popularidade dos governos provoca reações tanto para responder como para atender as demandas das ruas, e também para estabilizar a governabilidade, recompor bases políticas estremecidas e para refazer alianças com vistas às eleições de 2014.

7) O governo federal, além de sofrer queda de aprovação em setores médios e populares, sofre com dissensos na sustentação parlamentar e partidária, e corre o risco de desgaste na sustentação empresarial devido ao agravamento da crise econômica.

8) O governo Dilma acena com algumas medidas para atender as demandas das ruas (educação, saúde, transportes), mas não avança em reformas estruturais; deixa claro que não vai mexer na composição ministerial, não vai mexer no sistema de comunicação social, não endossa a aprovação de medidas reivindicadas por trabalhadores (redução da jornada de trabalho, fim do fator previdenciário, reforma agrária) e vai continuar com a privatização de portos, aeroportos, rodovias e petróleo.

9) O governo Dilma tenta envolver o Congresso Nacional e os partidos numa reforma política, mas não encontra respaldo tranquilo no conjunto do PT e nos partidos aliados; sabe que a crise política dos últimos dois meses animou eventuais concorrentes (Aécio Neves, Marina Silva e Eduardo Campos) para as urnas de 2014; partidos que integram o governo federal se articulam com outras coligações nos estados: é o caso de São Paulo em que PDT, PRB, PTB e PSB estão aliados com governo do PSDB.

10) O governo Dilma procura atacar o fantasma da crise econômica com medidas para atrair investimentos, aumentar o consumo e conter a pressão inflacionária, mas não consegue investimentos suficientes para sustentar índice de crescimento do PIB superior a 2%; o emprego e a indústria estão estacionados; as exportações perdem para as importações; indicadores apontam riscos com o aumento da inadimplência pessoal e empresarial; os bancos restringem os créditos.

11) A questão central do governo Dilma é "como recuperar o prestígio público e se manter em condições de disputa para ganhar o segundo mandato"; isso implica em mobilizar forças aliadas (partidos, sindicatos, movimentos sociais), fazer concessões sociais aos mais pobres sem comprometer modelo em funcionamento e, ao mesmo tempo, repactuar com empresariado e setores conservadores (aí sim com concessões para bancos, indústria, agronegócio e oligarquias), inclusive com tratamento preferencial para a mídia empresarial.

12) O projeto "continua Dilma" aposta evidentemente que o movimento das ruas possa refluir e/ou parar com o desgaste de seu governo; aposta que setores da esquerda do PT, sindicatos e movimentos sociais passem a trabalhar com a mesma lógica das eleições anteriores: na ausência de alternativa viável de candidatura de esquerda, todos vão preferir a reeleição de Dilma para evitar retrocesso (Aécio Neves) ou correr risco de aventura com outras candidaturas (Marina Silva e Eduardo Campos).

13) As ruas têm contribuído para uma experiência de conscientização que pode favorecer o campo das esquerdas, se a energia de contestação chegar a ser transformada em força política organizada; ainda é cedo para saber qual o saldo político desse processo; de um lado, não soma com os setores governistas, mas, de outro, também não parece descarregar força no bloco de partidos e organizações que já atuam no campo da esquerda combativa, como o PSOL, PCB, PSTU, PCO, PCR, LER etc; de qualquer forma, interessa para todas as correntes de esquerda recolocar nas ruas as pautas dos trabalhadores, dos estudantes e do "precariado" para a construção de um país justo, democrático e igualitário, inclusive para que se possa resgatar conquistas e direitos anulados nos vinte anos de políticas neoliberais.

14) Os setores das esquerdas que compõem as bases de sustentação do governo sabem que insistir em tais pautas, apostar nas mobilizações e acenar com reformas deliberadamente congeladas (política, agrária, tributária, comunicação social, previdenciária etc) significa risco de rompimento com as alianças conservadoras e de direita, pode significar o fim da aliança com as oligarquias e com o empresariado, pode resultar na debandada de parte do bloco de governo para outros projetos ainda não refutados pela opinião pública, como os de Marina Silva e de Eduardo Campos.

15) Assim, tudo indica que as forças de sustentação do governo Dilma tendem a evitar provocações com os setores conservadores e de direita; tendem a aceitar as imposições do empresariado, do capital e do mercado; e tendem a construir caminhos para conter as demandas populares das ruas sem fazer grandes mudanças, mas no máximo criar algumas ações que sejam suficientes para conter o avanço das manifestações ou que essas aconteçam num quadro de ordem e de absorção institucional.
16) Resta verificar o que o povo, nas ruas, tem a dizer agora em agosto, nos próximos meses e nas eleições de 2014. A história já está sendo escrita nas ruas. Só não vê quem não quer!

* Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor