Sem um pingo de culpa

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Uma personagem sem-terra
Uma personagem sem-terra

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Publicada em 09/08/2013 às 02:34:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Eu não vi Saluba. Medeia, mas vou recomendar o espetáculo mesmo assim. Não porque tive oportunidade de presenciar um dos primeiros ensaios da montagem, quando os atores ainda não tinham decorado nem as próprias falas e o cenário estava reduzido a uma linha torta, riscada com um pedaço de giz. Não por causa do texto assinado pelo diretor Celso Jr, que sublinha a verdade atemporal guardada na tragédia, aqui enlaçada a tradições e ritos ancestrais, para encarnar a violência apaixonada da personagem no corpo de uma atriz que se arrisca o tempo inteiro num desafio à plateia. Não porque o esboço apresentado na oportunidade sugeriu uma experiência das mais pungentes. Não apenas por isso. Saluba.Medeia é fruto da angústia realizadora do pessoal do Caixa Cênica. É o que me basta.

Na estreia dessa noite, a realização de um sonho. Segundo Celso, que também interpreta Jasão, o primeiro vislumbre da montagem se manifestou como uma aparição, durante o sono. Diane Veloso já era Medeia e lhe oferecia duas crianças mortas em sacrifício dedicado ao amargo dos próprios sentimentos. A peça inteira foi moldada pela imagem retida na memória.

O amor deformado, sem medida, transforma a Medeia de Celso numa proscrita, uma personagem sem-terra. Isso implica na completa ausência de um sentido moral para suas ações. Para pagar a traição sofrida por Jasão, Medeia é capaz de tudo e suja as próprias mãos com o sangue inocente dos seus, sem um pingo de culpa.

Celso, por outro lado, lavou as suas. Segundo ele, qualquer impulso inquisidor foi banido da montagem. "É importante deixar clara a nossa tentativa de não julgar as personagens. A encenação pretende apresentar cada argumento, sem comportar nenhuma moral pré-estabelecida. Cabe ao público tomar partidos. Ou não".

Saluba.Medeia - O espetáculo é baseado na tragédia grega escrita por Eurípides, que traz como tema central o amor exacerbado de Medeia. Na esperança de vingar a traição do marido, ela acaba provocando a morte dos próprios filhos.

Uma das referências utilizadas na concepção cênica de Saluba.Medeia estabelece um vínculo com a mitologia do candomblé. Assim, após a pesquisa encomendada ao antropólogo Breno Carvalho, foi estabelecido que as personagens Medeia e Jasão seriam associadas aos orixás Nanã e o jovem Oxalá, devido à relação de atrito e disputas entre os dois. Na mitologia afro-brasileira, Nanã foi desposada por Oxalá apenas por interesse deste. A relação gerou um filho deformado (Omulu), jogado num rio logo após o nascimento. O mito africano segue com a punição de Nanã, cujo segundo filho (Oxumarê) seria lindo, porém não ficaria jamais perto da mãe.

No esteio da busca pela compreensão do que sejam as representações do amor, o projeto de Celso o aborda sob nova faceta: o sentimento destrutivo de Medeia.