As falanges em ação

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Publicada em 14/08/2013 às 03:07:00

* Laurindo Lalo Leal Filho

Final de tarde no Rio de Janeiro. Dia da chegada do Papa ao Brasil. No Largo do Machado, reduto histórico de manifestações políticas, entre o Catete e as Laranjeiras, o clima assemelha-se a um happening. Em cantos diferentes da praça reúnem-se jovens católicos de várias partes do mundo, militantes do PSTU, ativistas dos movimentos LGBTS (algumas moças com seios à mostra), outros com bandeiras anarquistas e, claro, os policiais em trajes de guerra. Mas fica cada um no seu canto, com suas armas, cartazes e palavras de ordem. Sem confrontos.
Caminho sem preocupações entre os grupos quando outro tipo de gente chama a minha atenção: homens fortes, com idades entre trinta e quarenta anos, trajando camisetas justas começam a circular pela praça. Um está de luvas, outro enrola-se na bandeira da CTB, uma das centrais sindicais brasileiras. Muito estranho.
Os jovens católicos continuam a cantar nas escadarias da igreja. O grupo com as bandeiras do movimento gay aproxima-se e depois segue com os demais manifestantes rumo ao Palácio Guanabara, onde o Papa é recebido. Perco-os de vista.
Mais tarde soube dos tumultos às portas do palácio. Uma bomba caseira foi atirada contra os policiais. Claro que a culpa é logo atribuída pela mídia conservadora aos manifestantes. O desmentido chega através de um vídeo postado na internet revelando a ação de agentes policiais à paisana provocando tumultos. A maior surpresa vem a seguir. Lá estava em frente ao palácio, sendo dobrada por um policial, a bandeira da CTB vista por mim horas antes no Largo do Machado.
A ação dos policiais infiltrados, os chamados P2, não aparece na TV que, além disso, dá proteção total aos fardados. A GloboNews afirmou que um repórter da agência de notícias France Presse, visto com a cabeça sangrando em frente ao Guanabara, havia sido atingido por um coquetel Molotov. A narrativa fazia crer que a bomba só poderia ter sido atirada pelos manifestantes. Na verdade o jornalista fora vítima de uma cacetada desferida por um policial. O canal reconheceu o erro muitas horas depois, quando o estrago já estava feito. Pude ouvir pessoas nas ruas atribuindo essa violência aos manifestantes, sem saber da verdade.
A reação do governo do Rio foi a pior possível. Por decreto instituiu uma Comissão Especial de Investigações de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas com poderes até para exigir das empresas de telefonia e de servidores da internet a entrega de dados das comunicações feitas por qualquer pessoa. Recuou um pouco diante das reações desfavoráveis. O advogado Técio Lins e Silva chegou a comparar o decreto com as comissões de inquérito criadas na ditadura. "Está entre o delírio e o abuso de poder. É caso de impeachment, há uma violação clara de direitos constitucionais".
Driblando a inconstitucionalidade a comissão foi mantida e admite investigar a ação dos infiltrados. No entanto, dada a sua composição, fica difícil acreditar que a verdade venha à tona. Formam o grupo representantes do Ministério Público do Rio, da Secretaria de Segurança Pública e das polícias civil e militar.
Diante do histórico dessas polícias só resta chamar o ladrão, como dizia a música do Chico Buarque na época da ditadura.
Mídia e governo do Rio parecem saudosos daqueles tempos. A censura opera agora através dos próprios meios de comunicação com a seletividade dos seus noticiários não só sobre as manifestações de rua, mas também diante de temas como a reforma política, a proposta do governo para ampliar o atendimento médico, a denúncia de sonegação fiscal cometida pela Globo e o debate em torno da democratização da mídia, por exemplo. Temas que, quando não omitem, distorcem.
A desinformação associa-se ao autoritarismo do governo estadual fazendo lembrar - com um arrepio na espinha - do incêndio do Reichestag, o parlamento alemão, ocorrido há exatos 80 anos. Ação isolada de um individuo ou articulada por um grupo nazista serviu de pretexto para milhares de prisões garantindo apoio popular para um governo que levou a humanidade a um dos seus períodos históricos mais aterradores. Há seguidores por aqui.

* Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de "A TV sob controle - A resposta da sociedade ao poder da televisão" (Summus Editorial). Twitter: @lalolealfilho (Revista do Brasil, edição de agosto de 2013)