Instituição de Ensino Superior:

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Publicada em 23/08/2013 às 02:11:00

Qual é o papel social da instituição de ensino superior, seja pública ou privada? Quem é, afinal, o profissional que desejamos construir? Quais são nossas expectativas em relação a esse profissional? Quais funções sociais esse profissional está atendendo ou deverá atender?

* Rita de Cássia Sousa dos Anjos

No cenário de uma sociedade caracterizada pela globalização econômica e pela divulgação do conhecimento em redes cada vez mais complexas de informação, o papel e a função social das instituições de ensino superior, certamente, são redimensionados.

No que se refere à relação educação e sociedade, não é possível tratar satisfatoriamente os problemas educacionais sem fazer considerações acerca de sua historicidade e vinculação com fenômenos sociais mais amplos.

As instituições pedagógicas são, antes de mais nada, instituições sociais. Cada sociedade é levada a construir o sistema pedagógico mais conveniente às suas necessidades materiais, às suas concepções de ser humano, de mundo, de sociedade e de conhecimento. Ou, ainda, o sistema mais conveniente à reprodução das relações de poder que se manifestam em seu seio. Quando, pois, o sistema pedagógico muda é porque a própria sociedade mudou ou porque mudaram as relações de poder entre seus membros.

Como instituições sociais que são, as instituições educacionais refletem as características do sistema social que as inclui. Mas, em seu interior se manifestam, naturalmente, as contradições inerentes a esse mesmo sistema. Daí por que ações originadas do interior das instituições pedagógicas podem gerar mudanças significativas no sistema como um todo.

A trajetória percorrida pela educação brasileira em busca do entendimento e da análise da realidade social na qual está inserida a escola foi e ainda está sendo longa e conflituosa.

A compreensão da relação sociedade/escola nos convida e desafia, por sua vez, a olhar para trás em busca do desnudamento das tendências pedagógicas que subsidiaram a prática de sala de aula dos professores, em todos os níveis. Práticas essas que vão desde o intelectualismo formal do enfoque tradicional até o advento das tendências progressistas, embora ainda se percebam alguns traços marcantes de autoritarismo.

Observa-se, deste modo, analisando o percurso histórico da educação brasileira, sinais alvissareiros na direção de uma nova concepção de educação e, conseqüentemente, de uma nova função social da escola.
Nesta perspectiva, a educação é concebida a partir de princípios que constituem os quatros pilares da educação, quais sejam: aprender a pensar, a conhecer; aprender a saber - fazer; aprender a conviver com os outros; e aprender a ser, segundo o informe produzido pela Comissão Internacional sobre a Educação para o século XXI, da UNESCO: Educação - um tesouro a descobrir (1999).

A partir de então, progressivamente, a escola vai conquistando um espaço nas políticas educacionais e a questão da autonomia escolar ganha força. De quase esquecida, passa a ser a grande prioridade das intenções governamentais.

É nesse cenário que deve hoje ser equacionada a discussão de sua função social e de seu papel na construção da cidadania. Ao longo da história, a escola sempre foi e ainda é a instituição social que, por excelência, trabalha com o conhecimento de forma sistemática e organizada.

A retomada da constatação óbvia de que a escola tem papel fundamental na formação da cidadania desvela o caráter estratégico de uma gestão para o exercício desta função política e social. No âmbito da escola propriamente dita, passa-se de uma concepção de administração do cotidiano das relações de ensino-aprendizagem para a noção de um todo mais amplo, multifacetado, relacionado não apenas a uma comunidade interna, constituída por gestores, professores, alunos e funcionários, mas que se articula com as comunidades externas.

Diante do exposto, indaga-se: qual é o papel social da instituição de ensino superior, seja pública ou privada? Quem é, afinal, o profissional que desejamos construir? Quais são nossas expectativas em relação a esse profissional? Quais funções sociais esse profissional está atendendo ou deverá atender?
Em cumprimento à sua responsabilidade pública e social, cada instituição deverá construir o seu Projeto Pedagógico Institucional (PPI) alicerçado em sua missão, que objetiva socializar o conhecimento, visando contribuir para a formação de cidadãos livres e para a construção de uma sociedade mais humana, justa e igualitária.

Tendo como referência a sua missão, esta instituição deverá desenvolver, de forma articulada e consistente, suas atividades voltadas para o Ensino, a Pesquisa e a Extensão, procurando evidenciar sua preocupação com a questão da construção de sua própria identidade, sua intencionalidade e a revelação de seus compromissos com o contexto social no qual está inserida.

No momento, esta tarefa se constitui no maior desafio a ser enfrentado pela comunidade acadêmica vinculada a cada uma dessas instituições de ensino superior. No entanto, deverá existir, também, a convicção e o firme propósito de transformá-las num grande centro construtor de conhecimento, voltado ao atendimento das necessidades e aspirações do contexto local.
Neste sentido, cada curso de graduação a ser ofertado deverá construir, de forma coletiva, o seu Projeto Pedagógico de Curso (PPC), à luz dos pressupostos teórico-metodológicos desenhados no Projeto Pedagógico Institucional.

Essa tarefa de construção coletiva vai exigir do corpo docente, do corpo discente, dos demais integrantes da comunidade acadêmica e dos representantes da comunidade externa um constante acompanhamento do desenvolvimento do curso no intuito de aperfeiçoá-lo, garantindo assim que a formação do graduado chegue mais perto das necessidades colocadas pelo mercado de trabalho. Convém salientar que estamos preocupados não só com a formação do profissional, mas, sobretudo, com a construção do cidadão.
No intuito de fortalecer a dimensão Ensino, cada instituição deverá colocar à disposição da comunidade a vivência de atividades acadêmicas envolvendo programas de monitoria, de iniciação à pesquisa científica, de extensão e de pós-graduação além da participação em eventos como congressos, conferências e encontros científico-culturais, sejam no âmbito interno ou do seu entorno.

Diante do exposto, o que se espera, agora, é conclamar a todos os representantes dos segmentos que compõem cada uma dessas instituições a se tornarem partícipes do seu processo de construção coletiva.
As instituições de ensino superior brasileiras, sejam estatais ou particulares, somente cumprirão seu papel e sua função social frente às comunidades das quais são parte integrante se cada um de nós assumirmos o compromisso de transformá-las num espaço e num tempo que envolva um refletir e um fazer compartilhado e democrático, permanentemente em processo e que aponte para a organização de uma sociedade mais ética, emancipatória e centrada no conhecimento e na inclusão social.
 
* Rita de Cássia Sousa dos Anjos é Pedagoga e Mestra em Educação (UFPI)