Ali na esquina, tão longe

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto
A carne como contorno da poesia
A carne como contorno da poesia

Clique nas imagens para ampliar

Publicada em 17/10/2013 às 02:47:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

É sempre tempo de uma boa nova. O curta "Caixa D'água: Qui-lombo é esse?", da diretora Everlane Moraes,  foi selecionado para integrar o Kit da 8ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul. Os filmes honrados com a distinção recebem o Prêmio Diferença da TV Brasil, como reconhecimento por sua importância para a formação cultural do público em Direitos Humanos. A nós, entusiastas dos sopapos que maltratam os tambores da aldeia, contudo, interessa a satisfação de perceber os sustos capturados ali na esquina ecoando tão longe. Reconhecimento é bom e todo mundo gosta.

Memória, carne e poesia - Temerário arriscar a motivação de Everlane Moraes ao conceber o projeto do documentário Caixa D'água - Qui-Lombo é esse? (2012). O fato, no entanto, é que os quinze minutos de imagens reunidas no filme emprestam novo significado a uma das paisagens mais caras à geografia afetiva da cidade, agora pra sempre irmanada à verdade dos moradores mais antigos do lugar - uma música executada em tom monocórdio, captada durante sabe-se lá quantas horas de entrevista, uma melodia que nasce no mesmo abafado dos pontos de macumba e das preces que arrastam as novenas. Como se não bastasse o serviço prestado à memória, Erverlane ainda emprestou a própria carne para contorno da poesia.
Eu não fui o primeiro a perceber as virtudes do documentário. Relapso por natureza, na verdade fui um dos últimos a me prestar ao deslumbre. O estudioso Wesley Pereira de Castro, por exemplo, fez questão de compartilhar o seu assombro com os leitores do blog Críticas de um cinema nu, onde cataloga as impressões suscitadas por sua maior paixão declarada, logo depois do lançamento abrigado pelo Museu da Gente.
"Não apenas o filme resolveu muito bem a conjunção entre uma linguagem poética e, ao mesmo tempo, preocupada com a oralidade dos depoentes como algumas soluções estilísticas mui criativas (uma animação durante a narrativa da fundação espontânea de um cemitério infantil, projeções fotográficas sobre o corpo da própria diretora e de um ator, superposição de vozes, etc.), o teor bakhtiniano da narrativa documental impressiona pelo respeito aos moradores da comunidade onde a própria diretora vive, sendo que o curta-metragem é ainda agraciado por trechos antológicos de uma apresentação do cantor e compositor Irmão num programa da TV Aperipê, em que o artista cunha o neologismo "sofreviventes" para referir-se aos quilombolas. Emocionante e muito bem realizado: de longe, uma das produções mais interessantes do panorama audiovisual sergipano".
Se Wesley falou, tá falado. Caixa D'água é prova de que já fazemos Cinema de verdade.