O Enem e os irresponsáveis

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Publicada em 29/10/2013 às 01:14:00

Quem já se viu, em dia de prova do Enem, o maior e mais importante concurso estudantil do país, uma prefeitura fechar uma via importante sabendo que iria causar um nó no trânsito? Quem passou por ali sabe do que estou falando. Milhares de carros se arrastando na saída da ponte do Riomar e adjacências

* Gilson Sousa

Concordo que não é responsável a atitude do estudante que sai de casa em cima da hora para ir fazer a prova do Enem onde quer que seja. Reprovável, é lógico. Mas concordo também que mais irresponsabilidade é ver órgãos públicos e privados promovendo ações que contribuem diretamente para o atraso de dezenas, quiçá centenas de estudantes em deslocamento rumo ao Enem.
E foi isso o que aconteceu no sábado, 26, pela manhã. De forma irresponsável, repito, a Prefeitura de Aracaju autorizou o fechamento de parte da avenida Beira Mar, no sentido praia-centro, para realização de uma tal de Ação Global no meio da rua. Resultado: caos no trânsito, indignação dos motoristas, principalmente no horário das 10h às 12h.

Quem já se viu, em dia de prova do Enem, o maior e mais importante concurso estudantil do país, uma prefeitura fechar uma via importante sabendo que iria causar um nó no trânsito? Quem passou por ali sabe do que estou falando. Milhares de carros se arrastando na saída da ponte do Riomar e adjacências. Outras vias da cidade congestionadas, como a Adélia Franco. E tudo porque a PMA fechou a 13 de Julho num horário de pico sem sequer avisar às pessoas. Isso é o quê?
A propósito, aquele era o primeiro dia de prova do Enem. Quando os candidatos costumam estar mais nervosos ainda. Então, vi jovens desesperados correndo pelo calçadão da 13 de Julho, e não era fazendo Cooper. Fiquei assustado com a cena. O relógio andando impiedosamente. Quase meio dia. E aquelas pessoas presas naquele trânsito injustificável.

É claro que a grande maioria dos estudantes, felizmente, chegou cedo ao seu local de prova. Muitos tiveram o privilégio de serem levados confortavelmente nos automóveis dos pais com horas de antecedência. Outros nem tanto. Mas todos chegaram a tempo. Menos os que ficaram presos no engarrafamento criminoso do sábado pela manhã. Isso precisa ser dito.

Aliás, sobre atrasos, ainda no sábado li na imprensa nacional dois casos extremos que me deixaram comovido. Um rapaz de São Paulo não foi liberado pelo chefe no trabalho para sair um pouco antes do meio dia, seu horário habitual. Mesmo assim saiu do trabalho às 12h em ponto e partiu correndo feito desembestado pelas ruas da localidade. Ele até sabia que os portões da escola onde faria o Enem estariam fechados, mas quis cumprir sua obrigação. Não deu. Caiu em prantos.
Outra estudante confessou que varou a madrugada acordada e revisou os assuntos até as 7h da manhã do próprio sábado. Foi deitar, mas colocou o despertador para chamá-la às 11h. Também não deu. Quando acordou já era perto do meio dia. Foi correndo desesperada à escola, mas deu de cara com os portões fechados. Chorou sem discrição. Vai esperar mais um ano para tentar entrar numa universidade pública.
Todos nós sabemos que imprevistos acontecem. Ninguém está livre disso. Por isso não se deve culpar integralmente quem não conseguiu chegar na hora da prova. Mas irresponsabilidade tem limites. Um órgão público jamais deveria contribuir para tal coisa testemunhada por milhares de motoristas em Aracaju.

Ademais, conforta-me saber que naquele dia de caos no trânsito fui extremamente útil a um casal que corria desesperadamente nas proximidades da praça Tobias Barreto tentando chegar ao colégio Dom Luciano, na rua Itabaiana. Faltavam apenas três ou quatro minutos para o fechamento dos portões. Vi aquela cena e fiquei enternecido. Não pensei muito. Encostei o meu carro ao lado deles e gritei oferecendo carona. Eles também não pensaram muito. Atiraram-se dentro do veículo, a moça esbaforida e em prantos. O rapaz com cara de que o mundo ia desabar. Mas acelerei. Sem sequer perguntar qualquer coisa. Seguimos pela via, inclusive com a buzina do carro trabalhando, e chegamos à porta do colégio onde fariam a prova. Do portão, o fiscal gritou: - Falta um minuto, vai fechar! Mas os dois já estavam com o pé na calçada. Em prantos ainda. Desceram correndo, mas deu tempo de gritarem para mim: - Deus lhe pague!
Tá pago. Tenho certeza.

* Gilson Sousa é jornalista