Escondidinho e obrigatório

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Publicada em 29/10/2013 às 01:17:00

Não ir votar é uma escolha que, em qualquer idade, deveria ser respeitada. O voto obrigatório é a democracia na marra, a cidadania à força. Deveria recair sobre partidos e candidatos o desafio de demonstrar a importância e até mesmo a necessidade da participação política

* Antonio Passos

Juízes e desembargadores da Justiça Eleitoral estão empenhados em uma campanha para motivar os eleitores com idade entre 16 e 18 anos a comparecerem às urnas em 2014. Dizem, entre outras coisas, que a adesão dessa afortunada faixa eleitoral, que goza o benefício do voto facultativo, é baixa, algo em torno de apenas 1% de comparecimento. Que o jovem não é o futuro, o jovem é o presente!

Curiosa essa tendência institucional de sempre querer tutelar a sociedade civil. Como se todos fôssemos incapazes de fazer escolhas, como se ainda fosse cedo demais para deixar essa criança andar sozinha. Se considerarmos que a partir dos 18 anos de idade o comparecimento eleitoral tornar-se-á obrigatório é razoável que os jovens não queiram ir às urnas. Estão curtindo os derradeiros anos de liberdade.

Não ir votar é uma escolha que, em qualquer idade, deveria ser respeitada. O voto obrigatório é a democracia na marra, a cidadania à força. Deveria recair sobre partidos e candidatos o desafio de demonstrar a importância e até mesmo a necessidade da participação política. Do jeito que está - obrigatório - o comparecimento torna-se uma formalidade forjada para justificar um sistema de representação falido.
Aliás, depois de todo o alvoroço que tomou conta do Congresso Nacional, em decorrência das manifestações de junho, aos pouco os parlamentares voltaram à imobilidade costumeira. Resistem insensíveis a qualquer alteração que possa melhorar as regras do jogo eleitoral. Permanecem emperrados: o voto facultativo para os cidadãos e o fim do voto secreto nas casas legislativas.

Pronto! Bastariam esses dois pequenos gestos e o sistema representativo melhoraria imensamente. Já pensou todos os senadores, deputados federais, estaduais e vereadores votando abertamente em todas as votações? Seria uma revolução de costumes, pois, as defesas que os parlamentares fazem de interesses privados e partidários lesivos ao interesse público ganhariam autoria identificada.

E o voto facultativo para todos? As pessoas que votam por entendimento da importância do voto continuariam votando. Esse é um eleitorado que qualifica a representação. Já os que votam apenas porque são obrigados a comparecer, com certeza, passariam a cobrar mais caro pelo comparecimento. O diálogo e do compromisso estariam mais fortalecidos frente à moeda corrente na busca do voto.

Qual o quê! Pela lógica do sistema vigente deve parecer muito arriscado mexer nessas coisas: fim do voto secreto no poder legislativo e voto facultativo para o povo. Muito melhor é investir em publicidade, ensinar ao povo que votar é importante. Coitado do povo brasileiro, continua sem saber votar. Se não incentivar, não aconselhar, não pegar pela mão e levar não vai não. Coitadinho!

* Antonio Passos é jornalista