Um homem morreu de causas naturais

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Sexo, drogas e distorções que reverberavam o alarido barulhento da cidade
Sexo, drogas e distorções que reverberavam o alarido barulhento da cidade

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Publicada em 29/10/2013 às 01:28:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Lou Reed não deveria deixar saudade. Se metade das bandas derivadas do Velvet Underground tivesse enfiado o pé na lama com a mesma disposição do bardo das injetáveis, o cenário musical de nossos dias seria muito diferente. Ninguém é obrigado à sarjeta. Não há demérito algum no que chamamos de Cultura - o conjunto de experiências preservadas por meio da comunicação. Mas as canções de agora provam que os Strokes, por exemplo, nunca experimentaram um tropeço de verdade.

Lá se vão quarenta e seis anos desde que o disco da banana pintada por Andy Warhol negou a irrealidade propagada pela indústria fonográfica. Uma sessão de oito horas num estúdio de Nova Iorque bastou para que Lou Reed e John Cale registrassem o ordinário de tocaia nas esquinas. Sexo, drogas e distorções que reverberavam o alarido barulhento da cidade. Onze faixas que recendem às ruas.

Consta que, nos últimos anos, Lou Reed venha se prestando a tudo quanto é dueto, num esforço para fugir ao ostracismo. Segundo alguns críticos, contudo, o deespero não impediu alguns bons registros. A mim, não dizem nada. Os discos do Velvet, além de Transformer (1972), o seu segundo solo. Não há discografia mais afortunada.

Lou Reed morreu. Os boletins médicos devem relatar problemas no fígado transplantado há poucos meses. Bobagem. Como bem lembrou Gabriel Garcia Márquez enquanto corria a notícia de que Hemingway havia estourado os miolos com uma espingarda, as circunstâncias não importam - um homem morreu de causas naturais.