Concursos de quadrilhas são responsáveis pela carnavalização junina

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Publicada em 03/07/2012 às 15:23:00

* Elton Coelho

No último domingo, 01, após o Fantástico, dei um saque na TV para ver o Festival Regional de Quadrilhas da Rede Globo Nordeste. Pouquíssimas são as quadrilhas que preservam tradições. Tudo é temático, estilizado, carnavalizado, como a imitar os rituais das escolas de samba.
Infelizmente esta tendência já chegou a Sergipe, num passo gigantesco de coreografias frenéticas, sem arremate à cultura junina, mas muito mais com a preocupação de sensibilizar o público, organizadores e jurados para quem melhor marcar o passo do balé junino.
É uma realidade. Não devo fechar os olhos à dinâmica da cultura, compreendo que não podemos parar no tempo, mas, também, não é justo que esse tom moderno da dança quadrilheira seja espelho para as futuras gerações. Há que se repensar.
Nesse particular é que, mesmo aceitando a estilização, a organização dos concursos juninos (de Sergipe ao Brasil), deveria se ater à história da dança junina no Nordeste, pela forma como ela se transpôs dos salões à incorporação dos nossos cultos aos santos, à religiosidade e à festa em comemoração à colheita, à fartura.
Elementos da dança devem compor as tradições, a exemplo da visita de cavalheiros e damas, passeios dos namorados, caracol, grande "X" dançante, enfim, eles não podem ser esquecidos em nome somente das coreografias do corpo e numa exaltação exacerbada dos temas.
Ainda citando outro aspecto, nota-se, igualmente, uma luxuosidade gritante quanto aos trajes das quadrilhas juninas, que evoluíram significativamente para uma arrumação mais bem preparada nos seus feitios e características do corte e costura. No entanto muitas, no afã da competitividade, se afastaram em demasia do traje como elemento complementar da dança junina, atraindo para si verdadeiras fantasias assemelhadas ao período momesco.
Enfim, segue mais esta reflexão a todos os marcadores, diretores e brincantes da quadrilha junina em Sergipe, pois que, ao apenas se preocuparem em agregar valores aos ditames de determinados concursos, terminam por disseminar uma regra que nunca povoou a quadrilha sergipana, sempre mais caracterizada pela dança, pela conquista do cavalheiro à dama, simbolizada nos ritmos do xote, xaxado, baião e das marchinhas como principal construção do espetáculo de cada grupo.
Lamentável que essa tendência esteja compilando mentes e corações e ainda estimulando uma competitividade desmedida no ciclo junino, esquecendo-se de raízes e tradições culturais. Pra fechar o elenco, nossa representante no concurso da Rede Globo (Pioneiros da Roça) ainda levou a pior, ficando num despercebido 8º lugar das estilizadas.

*Elton Coelho é jornalista, ex-quadrilheiro e ex-dirigente de quadrilha junina