QUEM SEMEIA VENTOS COLHE TEMPESTADES?

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Publicada em 17/11/2013 às 00:50:00

ONG significa: Organização Não Governamental. Mas não existe nada tão encrustada aos governos do que a grande maioria dessas entidades que se espalharam epidemicamente por todo o país, desde quando se descobriu que é muito fácil posar de bom moço e virar mecenas com o dinheiro público. Sem desmerecer das funções desempenhadas pelo chamado Terceiro Setor, aquelas entidades privadas que suprem as atividades ou preenchem o vácuo deixado pelos governos, torna-se cada vez mais ostensivo o desvirtuamento das finalidades específicas das ONGs, e a transformação de muitas delas em poluídos canais de desvio dos recursos públicos. Se dependesse das boas intenções todos estaríamos a usufruir dos benefícios gerados pelas entidades de direito privado, criadas, todas, pelos que se dispõem a dar, sempre magnanimamente, uma parcela de colaboração com vistas ao bem comum. Todavia, não há Pai Nosso, por mais salmodiadamente repetido, que nos livre inteiramente das tentações criadas pela facilidade em manipular recursos que não nos pertencem. As ONGs, hoje, fazem exatamente isso: Mexem com cifras enormes de dinheiro saído dos cofres públicos. No caminho que leva ao objetivo final, que é a aplicação em projetos sociais, científicos, ambientais, culturais, o reluzir bem próximo do chamado vil metal, tanto atrai e tanto seduz, que o público pode acabar se transformando em privado. E lá se vão as mais puras e belas intenções. Dai, a necessidade de existir um eficaz acompanhamento de todo o trajeto percorrido pelos dinheiros que saem do governo, fazem escala nas ONGs, antes de, teoricamente, irem parar na sociedade, seu destino final. Quando o volume de recursos salta à vista, de tão portentosos, e os benefícios não se fazem evidentes, então, surge a suspeita em relação à eficácia social dessas organizações ditas não governamentais, e é preciso, em relação a muitas delas, fazer-se uma avaliação criteriosa sobre o binômio custo- beneficio, porque o real desperdiçado, ou desviado, sai do sempre extorquido bolso do contribuinte.

Agora, descobre-se através de ações simultâneas deflagradas pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas, que uma ONG, top de linha do charme badalativo, e da eloquência descritiva dos beneméritos propósitos, a SEMEAR, foi o terreno fértil que atraiu, apenas em dois anos, a exuberante semeadura de 40 milhões de reais, saídos dos cofres públicos. A SEMEAR, é sigla no mínimo audaciosa de uma ONG que se propõe a fazer ¨estudos múltiplos¨ e, mais especificamente, a tratar de ecologia e arte. A SEMEAR planta, pinta e borda, talvez costure, e vai além: Faz também consultoria, seja em educação, saúde, e avança, semeando sempre pelos diversificados terrenos do conhecimento, e das atividades humanas. Vai da prosa e da poesia às matemáticas, à botânica e geologia. Se um dia aquele modesto e primitivo aeróstato ladeado por índios emplumados, o nosso sergipano brasão, der lugar a um aerodinâmico foguete simbolizando nossas pretensões espaciais, algum artista da SEMEAR poderá ter oferecido oportuna consultoria para a elaboração da sofisticada e certamente dispendiosa infomarca.

A entidade sem dúvidas é ágil. Como se diz no popular: Está em todas.
Depois de tanto haver semeado, o que no mínimo se espera é que a SEMEAR exiba os resultados de uma portentosa safra de benefícios sociais.
Isso, pelo menos, é o que exigem agora o Ministério Público e o Tribunal de Contas de Sergipe.
O procurador Geral Orlando Rochadel encaminhou, para análise do Tribunal de Contas, o inquérito aberto pela promotora de Justiça Ana Paula Machado. Responsável pelo acompanhamento do Terceiro Setor, a promotora exige da SEMEAR que obedeça as regras básicas de um comportamento transparente. Já o Tribunal de Contas, após relatório apresentado pelo conselheiro Ulices Andrade, por determinação do presidente, conselheiro Carlos Alberto Sobral, vai aprofundar a análise nas contas que deverão, segundo o procurador João Augusto Bandeira, incluir minuciosas informações sobre os frutos sociais obtidos a partir da semeadura de milhões de reais nos projetos tocados pela entidade que, sozinha, recebeu mais recursos do que todas as ONGs existentes em Sergipe.

A SEMEAR, que tem no seu quadro de fundadores e dirigentes nomes de projeção e respeitabilidade, certamente irá demonstrar que não semeou ventos correndo o risco de colher tempestades.