Blue Jasmine

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Não é todo dia que a gente vê uma das melhores atrizes americanas ser dirigida por um ícone vivo da sétima arte
Não é todo dia que a gente vê uma das melhores atrizes americanas ser dirigida por um ícone vivo da sétima arte

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Publicada em 14/12/2013 às 00:07:00

* Anderson Bruno

Woody Allen é um dos mais conhecidos diretores da atualidade. Praticamente a cada ano, o septuagenário lança um filme. Neste de 2013 somos brindados com 'Blue Jasmine' (EUA, 2013, 98 min).

Como todos os atores do mundo querem trabalhar com Woody Allen, não é difícil para ele convencer os artistas a fazerem parte de seu elenco. Nesta produção, em específico, é óbvio o apuro na escolha da protagonista. Cate Blanchett, a escolhida, interpreta Jasmine; mulher forte, orgulhosa, egocêntrica, egoísta, sensível e louca. Uma grande parceria entre os dois.  Digno de entrar nos pontos a serem apreciados na história fílmica em geral. Não é todo dia que a gente vê uma das melhores atrizes americanas ser dirigida por um ícone vivo da sétima arte.

O roteiro do próprio Woody Allen expõe Jasmine perante a uma derrocada capitalista. O novo petardo do diretor é uma obra crítica ao sistema financeiro vigente no mundo contemporâneo. Uma boa maneira de fundir sua maior paixão textual - a psique humana e seus reflexos (positivos e negativos) - a um outro conflito. Ele continua a trabalhar a comédia nesta produção, porém boa carga dramática é adicionada à sua receita.

Suas histórias sempre tem um quê de narrador-personagem e neste 'Blue Jasmine' não é diferente. A edição de Alisa Lepselter ajuda nessa composição. Enquanto os atores conversam e expõem assuntos narrativos, cenas de flashback acompanham suas histórias, dramatizando-as nas sequências. A técnica dá dinâmica ao roteiro e, ao mesmo tempo, acompanhamos a vida de Jasmine de trás pra frente. A cenografia de Michel E. Goldman e Doug Huszit captam enquadramentos tanto de Nova York (cidade fetiche do diretor), quanto São Francisco. As cenas internas (decoradas por Kris Boxell e Regina Graves) também são uma marca do diretor. Aqui temos as duas faces da moeda social: de um lado os ambientes finos e sofisticados e do outro os lugares mais simples e comuns.

O grande desastre financeiro que teve início em 2008, foi gerado por uma especulação financeira mesquinha. O négócio de hipoteca dos imóveis dos cidadãos americanos foi desastroso para muitos de seus inquilinos. Moradores perderam suas casas e o mundo entrou numa crise que ainda hoje vigora. Todo o pano de fundo da história de Jasmine está aí. Pode-se dizer que o filme também trata de destino. A relação com sua irmã adotiva Ginger (Sally Hawkins) é um ponto super importante. Sendo a única pessoa  a quem recorrer, as duas vão resolver questões pendentes e, principalmente, exibir um antagonismo de personalidade e ideologia. Esse conflito funciona como a um reflexo da parte negativa da ambição financeira do ser humano, bem como a imagem de superioridade social irradiada perante os outros. Digamos que o filme tenha uma mensagem bastante simples sobre a vida que você precisa ter numa sociedade.

A canção 'Blue Moon', composta em 1935 e interpretada por The Marcels, Tony Bennett, Elvis Presley, Ella Fitzgerald e Billie Holliday, aqui dá o tom da personagem, do título do filme e perpassa sensorialmente por toda a produção. Todas as peças fílmicas estão juntas num fino trato conduzido por Woody Allen na exibição da história dessa mulher. Um filme a se ver. Apenas penso não possuir a aura naturalista de convergência entre a atriz Cate Blanchett e seu diretor Woody Allen. Mesmo Cate provando ser uma grande intérprete, com direito a closes e paradas dramáticas de sua personagem, a sensação é de uma dobradinha fria, burocrática e técnica.  

* Anderson Bruno é crítico audiovisual.