A violência das torcidas é o espelho dos cartolas

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Publicada em 22/12/2013 às 03:03:00

* Bruno Lima Rocha

A última rodada da série A do Campeonato Brasileiro de Futebol profissional nos fez lembrar um triste fenômeno, cuja ação é recorrente no país há mais de 35 anos. Refiro às chamadas torcidas organizadas e seu fetiche pela demarcação de territórios simbólicos através da violência coletiva e risco físico.
Estas agremiações, tanto em sua versão brasileira (com símbolos próprios e associação individual), como nas barras (estilo argentino de torcida, reproduzido no Rio Grande do Sul), infelizmente reproduzem o pior do conflito social entre semelhantes.
Seria leviano isolar uma briga como a que ocorreu entre os Fanáticos do Atlético Paranaense e a Força Jovem do Vasco assim como não é correto afirmar que este fenômeno é conservador em todos os lugares do mundo.
Embora não seja a maioria, na Europa é comum vermos torcidas (ultras) posicionadas mais à esquerda, motivadas pelo corte de classe manifestado entre torcedores de diversos clubes. Destacam-se o St. Pauli (Alemanha), Rayo Vallecano (Espanha), AEK Athens (Grécia), Olympique de Marselha (França) ou Livorno (Itália). Já na América Latina, e reforçadamente no Brasil, temos majoritariamente, apenas o lado nefasto.
O futebol como fenômeno de massa desta sociedade, reproduz em essência as regras do jogo real da política, a partir de uma elite dirigente descolada das bases associativas e grupos de pressão agindo em causa própria e comandada por arrivistas.
A relação das torcidas com os cartolas, por sinal boa parte deles dirigentes "profissionais" de futebol ou que fazem do esporte um trampolim político e de negócios, é de clientela. Os chefes garantem a claque e os mandatários dos clubes, através de recursos de patrocínio, cotas de televisão e mensalidades de sócio-torcedor, colocam ônibus gratuitos e disponibilizam ingressos. Assim, em nome dos clubes, cria-se uma relação simbiótica entre torcida organizada e direção. Pela norma, tanto líderes de torcidas como cartolas de futebol não poderiam ser remunerados.
Se tivéssemos regras democráticas, com voto direto a todo sócio-torcedor e capacidade de referendo revogatório para dirigentes eleitos, nada disso estaria ocorrendo. A realidade nos diz o contrário. As torcidas têm hierarquia militarizada e relação de mando e privilégio para chefes. São populares, mas não têm democracia interna. O mesmo ocorre no comando dos clubes. Logo refletem no andar debaixo os desmandos da cartolagem na cobertura. No país do futebol, a bola é o espelho das estruturas de poder.

* Bruno Lima Rocha é cientista político e professor de relações internacionais.
(www.estrategiaeanalise.com.br / blimarocha@gmail.com)