Quilombolas de Brejão inauguram nova casa de farinha coletiva

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Depois de muitos fogos, a comemoração foi regada a muita música,  dança, capoeira e ritos religiosos
Depois de muitos fogos, a comemoração foi regada a muita música, dança, capoeira e ritos religiosos

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Publicada em 21/01/2014 às 01:25:00

Mais uma vitória marca a história de resistência do povo quilombola de Brejo Grande. Neste sábado, 18, a comunidade de Brejão dos Negros realizou um sonho antigo: a construção de uma casa de farinha comunitária. O novo equipamento possibilitará, de agora em diante, que além de plantar a mandioca, a comunidade possa processá-la para transformá-la em farinha e em outros produtos, melhorando a renda familiar, gerando melhores condições de vida e mais dignidade para quem vive na localidade.
"Hoje, plantando na roça e beneficiando a mandioca, nós vamos vender e ter maior lucro, aumentando a renda e melhorando a qualidade de vida, que é nosso objetivo", comemora a líder comunitária Maria Izaltina Silva Santos, ressaltando que a casa de farinha permitirá não apenas a produção de farinha, mas também de outros derivados da mandioca, como o bolo, a tapioca, o e o sequilho. "Também utilizaremos o caldo extraído da mandioca, chamado manipueira, para adubar e proteger nossa terra de formigas", planeja Izaltina.

Sempre lutando ao lado dos quilombolas, a deputada estadual Ana Lúcia comemorou junto com a comunidade esta importante conquista. Juntamente com o Padre Isaías e a Cáritas, a professora Ana Lúcia apoiou financeira e politicamente a construção da casa de farinha, por meio da concessão de subvenção para a Associação Quilombola Santa Cruz, formada pelos quilombolas de Brejão dos Negros. "Se não fosse pelos nossos parceiros Ana Lúcia, Padre Isaías e o Instituto Braços, não teríamos chegado onde chegamos", agradeceu a quilombola Maria Izaltina Silva Santos, líder comunitária da região.
Para a deputada Ana Lúcia, a casa de farinha representa muito mais do que um instrumento de trabalho para os quilombolas de Brejão dos Negros. Ela acredita que este equipamento comprova que as terras devolvidas aos quilombolas como forma de reparar um erro histórico passaram a ter uso não apenas para o sustento de cada uma das famílias que nelas vivem, "mas mudaram profundamente a vida destas famílias, resgatando-lhes a dignidade".

Ana Lúcia reforça que a forma de organização da comunidade também foi profundamente modificada, como consequência da perseguição e da violência sofrida durante as disputas pela terra no local. "A forma como foi conduzida a construção dessa casa de farinha reforça que toda a resistência das comunidades diante da luta pela demarcação das terras na região não foi em vão e mais do que isso: ela sinaliza que essa resistência fortaleceu a comunidade enquanto um coletivo ativo, que não vai mais parar de lutar. Daqui para a frente, a luta será para consolidar a distribuição da terra aqui em Brejo Grande, para fortalecer a união e a organização coletiva dos quilombolas da região", avaliou Ana Lúcia.

A articuladora do Movimento Nacional de Direitos Humanos em Sergipe (MNDH-SE), Lídia Anjos,  que se somou ao povo quilombola pela defesa demarcação das suas terras, lembrou que o primeiro momento que o MNDH esteve nas comunidade quilombolas de Brejo Grande foi em virtude das ameaças e conflitos vivenciados por eles, justamente por conta da luta pela demarcação das terras quilombolas da região. "Mas hoje estamos aqui para um momento de festividade, para comemorar uma vitória da comunidade, uma vitória que demonstra o empoderamento de Brejão dos Negros. Diferente do momento anterior, nós agora estamos sendo convidados pela comunidade em virtude da colheita dos resultados da resistência", comemora a assistente social.

História de um sonho - A construção da casa de farinha na comunidade Brejão dos Negros teve início com o esforço coletivo, como conta Izaltina. "Quando recebemos a terra, nós começamos a plantar a mandioca e veio a preocupação quanto à necessidade do beneficiamento. Então cada membro da Associação Quilombola Santa Cruz passou a contribuir com o que podia para a construção da casa de farinha. Foi aí que outros parceiros foram se somando e fortalecendo nosso sonho, como a Cáritas, que entrou com os custos do telhado e a deputada Ana Lúcia, que concedeu a subvenção para nossa associação", explica a líder quilombola.

A construção foi feita de forma coletiva, em regime de mutirão, pelos próprios quilombolas. Com o terreno comprado e construído, um novo empecilho surgiu para a realização do sonho: a energia elétrica não chegava de forma adequada no local onde iria funcionar a casa de farinha. "E outra vez Ana Lúcia contribuiu com a gente. Ela marcou audiência com a Energisa e nós da comunidade pudemos contar pessoalmente nossa história e nossas dificuldades. Depois disso, os técnicos da Energisa vieram até aqui e resolveram o problema da eletricidade", conta Izaltina.