Felicidades, Aracaju

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Publicada em 18/03/2014 às 10:53:00

* Gilson Sousa
gilson.sousa@ig.com.br
 
Decididamente, Aracaju não merece a maldição do Cacique Serigy. Merece sim incorporar no seu cotidiano as virtudes do lendário índio guerreiro. Bem antes de 1855, quando foi oficialmente fundada, a história nos conta que por aqui pisaram e transitaram índios valentes, apaixonados por seu lugar, sua terra, seu habitat. Eram determinados na defesa e no prolongamento da existência. Chegavam a meter medo em quem se atrevesse a colocar o nariz por aqui sem a devida permissão. Então talvez aquela tenha sido a época da verdadeira qualidade de vida nesta terra chamada Aracaju.

A propósito, as histórias de antropofagia que se propagam ao longo dos tempos fazem muito sentido. As tribos que por aqui habitavam, protegendo o litoral entre o rio São Francisco e o rio Real, eram apontadas pelos invasores estrangeiros como as mais resistentes na costa brasileira à época. E olha que isso era só o começo de tudo. Entre 1500 e 1590, os invasores portugueses penaram para colocar os pés por aqui. E o mérito, sem dúvida, é do Cacique Serigy e seus destemidos seguidores de pele vermelha.
Essa história começou a mudar quando o poder de fogo do homem malvado venceu a precisão do rude instrumento de arco e flecha. Dizimaram os índios, destruíram culturas, cavoucaram lendas, arremessaram merda no ventilador do tempo. Os psicodélicos desenfreados tomaram conta do território que tinha dono. E deu no que deu. Pura esquizofrenia de gente barbuda e mal cheirosa cujo norte era a ganância. Por isso essa terra que mais tarde a tornaram Aracaju perdeu tanto.

Foram-se os índios, ficaram as depravações. Para isso tiveram que esmagar desejos bucólicos. Tiveram que esfolar os sentimentos de amor à terra em que habitam. Covardes malfeitores. E deu no que deu, repito. O terror tomou conta dessas plagas. O descompasso de tudo imperou. E nessa terra, de rios, matas e papagaios, somente abutres davam as ordens. Portanto, a maldição do Cacique Serigy se sustenta. Mas não a merecemos. Não mais.
Por favor, deixem agora que brotem flores neste vergel desprovido de quase tudo. Deixem frutificar solidez nos canteiros. Deixem que as coisas aconteçam com naturalidade. E que os desbundes de outrora não interfiram mais em nada. Deixem Aracaju em paz, seus urubus. Respeitem a lança e a herança de Serigy. Afinal, é aniversário da cidade. Aracaju está fazendo 159 anos. Tão jovem e tão sofrida. Mas com futuro promissor, casos os carniceiros de plantão se apaguem deste cenário.
Felicidades, Aracaju.

* Gilson Sousa é jornalista