Rian Santos
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Chico Buarque faz 80 anos no próximo dia 19.A vida vivida, a obra construída ao longo do tempo, obrigam todo brasileiro a celebrar o legado do sambista.
Quando o Rio era lindo – ‘Caravanas’, o álbum mais recente do artista, é um produto de outro tempo, quando todo mundo amava Chico Buarque e o Rio de Janeiro ainda era lindo. É um disco de ponteiros trocados. E, por isso mesmo, é também o lançamento mais oportuno e importante dos últimos anos.
Agora é tempo de submeter os desígnios insondáveis da criação a sensibilidades organizadas. Mesmo Chico Buarque, admitido até outro dia como um caso singular, único exemplar conhecido de um macho capaz de se colocar na pele de uma mulher, teve as orelhas puxadas pela patrulha feminista em função de um verso pinçado aleatoriamente de uma canção, à revelia do contexto. A turba anda agitada. Pobre de quem empregar uma vírgula sem pedir licença ao movimento.
‘Caravanas’, ao contrário, apresenta o mesmo Chico Buarque de sempre, um compositor obediente apenas às próprias premissas e à musicalidade de um espaço idílico, de lirismo profundamente identificado com um Rio ideal, repleto de tipos e paisagens. Os temas podem até variar, conforme o curso dos acontecimentos. Na superfície da canção, entretanto, floresce invariavelmente o sambista de sotaque carioca, o cronista do entorno, o amante desesperado. E, em todos estes, o poeta do prosaico, de olhar arguto e melodias suaves.
Chico Buarque é a prova viva de que a gente também pode viver na pele dos outros, experimentar experiências alheias, arriscar uns passos além do próprio umbigo. E foi por isso mesmo que ‘Caravanas’ virou alvo de dedos acusadores, apontados para a ousadia da subjetividade. Sinal dos tempos. E da necessidade, ainda mais agora, de um artista autêntico como Chico Buarque – firme e forte, e afiado, em todas as plataformas de streaming.


