Django – Tarantino regado a sangue e violência

* Anderson Bruno

Antes de começar a redigir sobre o novo petardo de Quentin Tarantino, fiquei surpreso ao ver apenas algumas poucas sessões do filme no cinema. Tudo bem que a produção tem duas horas e tanto, mas, mesmo assim, imaginei outros horários disponibilizados nas câmaras escuras de projeção. É um filme de Tarantino, com Leonardo DiCaprio no elenco. É de se esperar uma boa platéia. Porém, apenas cópias dubladas estão sendo exibidas. Estranho. Conversei com um dos gerentes do cinema e recebi a informação de que isso se devia ao pedido desse tipo de cópia, para atender a uma maior fatia do público. Enquanto isso, quem estiver a fim de contemplar a produção em sua versão original, vai ter que baixá-la da internet, assistir em outro estado ou esperar vê-la na TV a cabo ou quando chegar nas locadoras.
Sobre "Django Livre", é escancaradamente mais uma produção de Quentin Tarantino. Quem acompanha suas obras conhece de cor e salteado suas peculiares características.

A negritude ganha força neste lançamento. Jamie Foxx é Django: negro, escravo e protagonista. O ápice da escravidão africana em solo estadunidense se deu dentre os séculos XVII e XIX. É no ano de 1858, dois anos antes da Guerra Civil americana, o retrato dramático cinegrafado em "Django Livre". O filme faz questão em frisar esse momento histórico. Afinal, outra super-produção americana já havia encenado a Guerra Civil em sua história de amor: "…E o vento Levou" (Gone With The Wind, Victor Fleming, 1948). Sim, "Django Livre" é um filme de amor. E não é só na referência romântica o paralelo entre as duas produções. Do mesmo jeito que as tropas de soldados foram para o Sul quando ‘o vento os soprou para a Geórgia’, mostrada na legenda do clássico filme, no longa de Tarantino a legenda diz que ‘depois do lucrativo inverno, eles foram para o Mississipi’.

A fotografia, o figurino de Django e a direção de arte, por vezes parece ‘copiar e colar’ planos do grande épico protagonizado por Clark Gable e Vivien Leigh. O contra luz com um céu deslumbrantemente magenta e a fazenda de ‘Kandland’ (propriedade de Calvin, personagem muito bem personificado por Leonardo DiCaprio) nos faz relembrar o refúgio da Scarlet O’Hara: a mansão Tara. Do mesmo jeito, nas duas referências, os negros são supremos nos papéis de servos e escravos de seus senhores.

Explica-se também o porque de os negros não possuírem sobrenomes de seus antepassados africanos. Como na personagem Brunilda, de alcunha alemã Broomhilda von Shaft (Kerry Washington), escrava comprada por senhores germânicos. Um pretexto muito interessante dentro do roteiro para inserir o austríaco Christoph Waltz, um ex-dentista, agora caçador de recompensas.

Por sinal, eram os caçadores de recompensas que reinavam nos faroestes imortalizados por Clint Eastwood, Lee van Cleef, Sergio Leone e Franco Nero, este último protagonista do filme original "Django" (ESP/ITA, 1966). O ‘Western’ está gravado na memória coletiva com músicas dos italianos Ennio Morricone e Luis Fernando Bacalov, revisitado em "Django Livre" por Quentin Tarantino.

Outros nomes de peso compõem a trilha sonora do filme como Jerry Goldsmith, James Brown, 2Pac e Jim Croce. Não há produção tarantiniana sem a devida atenção à parte musical. Enfim… Quentin Tarantino tem seu estilo regado a muito sangue, onde os negros sempre estão em evidência, por vezes polemicamente estruturado em seus roteiros pelo linguajar racista desenvolvido dentro do próprio meio de convívio da raça, como ‘crioulo’ (ou nigga, em inglês), por exemplo.

Isso faz despertar o ódio por parte de alguns a esse diretor. Politicamente incorreto ou não, Tarantino nos mostra mais uma obra regada a muito sangue e violência para o nosso deleite, público ávido a compartilhar de suas sandices cinematográficas. E que venha a segunda parte de Bastardos Inglórios e a terceira de Kill Bill!

*Anderson Bruno é crítico audiovisual.

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