Uma experiência sensorial

*Anderson Bruno

O primeiro longa-metragem de ficção do recifense Kleber Mendonça Filho é uma versão mais alongada de seu curta-metragem ‘Eletrodoméstica’, de 2005. Quem o assistiu irá perceber os mesmos temas abordados nas duas produções. Até mesmo algumas sequências desse pequeno filme estão reprisadas em ‘O Som ao Redor’ (131 min, BRA, 2012).

É um estudo sensorial das relações sociais na capital pernambucana. Na verdade, a comunidade dramatizada na produção, pode ser estendida e comparada a qualquer lugar do Brasil e também do mundo, quando vista sua relação interpessoal. O diferencial está na especificidade desta cidade nordestina e suas peculiaridades. Kleber é um pernambucano, nascido e criado em Recife, cidade detentora de vários prêmios cinematográficos. A capital é, a cada ano, uma verdadeira Meca do cinema nacional. O diretor está atento a isso e a irradia também em sua obra. ‘O Som ao Redor’ é Recife e seus hábitos, sotaque, costumes, diferenças, urbanismo, arrogância, modernidade e passado nostálgico.

Em todas as produções desse diretor, o apuro estético do som é evidente. O próprio Kleber é o responsável por esta função. E nesse longa os efeitos sonoros se transformam em protagonistas, tanto que dá título ao filme. Por sinal, um sergipano é o profissional responsável pela trilha sonora deste e de outros trabalhos do autor: DJ Dolores. Está lá, em seu registro de nascimento: Hélder Aragão, vulgo DJ Dolores, sergipano de Propriá. Por mais que de coração, ele seja mais pernambucano do que Serigy.

Não muito diferente das outras obras de Kleber, o tratamento sonoro é imprescindível no fluir da narrativa. Há uma mescla de áudio ambiente com fusão de sons, delineados para se construir um efeito sensorial à cena. É como se, em alguns momentos, o efeito do som criado reproduzisse a verdadeira aura cênica não revelada com o som ambiente. Nesse momento ela remodela o nosso visual através desse áudio, proporcionando um novo significado à cena. Aspecto natural em todo e qualquer filme, mas aqui em ‘O Som ao redor’, esse desempenho sonoro é colocado em primeiro plano.

‘O Som ao Redor’ não é um filme fácil em se classificar. Bom? Ruim? Penso que a discussão é maior que estas simples delimitações. É um tipo de cinema muito específico de um autor que empreende personalidade à sua obra e que está no movimento cinematográfico nacional querendo contribuir com materiais de qualidade. Em alguns momentos, parece pretensioso demais. E exponho aqui a parte negativa deste adjetivo.

No filme, por vezes, é ressaltado momentos de crítica social, cinematográfica ou sei lá o quê. O problema é a direção pensar que está fazendo isso pela primeira vez, como se nenhum outro diretor o fizesse antes. E pimba! ‘Descobri a caixa de Pandora! Agora vou abrir pra todo mundo ver. Fui o primeiro a mostrar’, reprodução pessoal de pensamento acerca do realizador.
‘O Som ao Redor’ ganha no sotaque, mas perde na vaidade. O filme enquanto segmento cinematográfico deve ser visto com curiosidade. Elogiado ou massacrado com parcimônia.

*Anderson Bruno é crítico audiovisual.

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