Gabriel Damásio
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A Polícia Civil anunciou ontem a prisão de mais um acusado de abuso e exploração sexual contra crianças e adolescentes: Reginaldo Pinheiro dos Anjos, 45 anos, o "Doutor", foi detido na tarde de segunda-feira por agentes do Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV), depois de ser investigado por mais de dois meses. Segundo a apuração, o acusado se passava por "olheiro" (observador) da Associação Desportiva Confiança e aliciava adolescentes prometendo encaminhá-los para grandes clubes de futebol, mas abusava sexualmente dos rapazes. Ao todo, 14 adolescentes de estados como Bahia, Goiás, São Paulo e Santa Catarina foram enganados e violentados.
A direção do Confiança negou a existência de qualquer vínculo com "Doutor", que será indiciado pelos crimes de estelionato, tráfico interno de pessoas e exploração sexual de crianças e adolescentes. No apartamento de Reginaldo, situado em um prédio na rua Itaporanga, centro de Aracaju, foram apreendidas dezenas de frascos, pomadas e cartelas de comprimidos com calmantes e remédios para pressão, entre outros medicamentos, além de seringas e injeções. O acusado alegou ser técnico de enfermagem, mas, de acordo com a polícia, ele usava esses remédios para dopar os adolescentes, tornando-os mais vulneráveis aos abusos sexuais.
A delegada Mariana Franco Diniz, responsável pelo inquérito, informou Reginaldo percorria vários estados e se apresentava em bairros carentes como "olheiro" do Confiança, oferecendo aos adolescentes a "oportunidade" de se tornar um jogador de futebol. "Eles foram atraídos com promessas de se tornarem, rapidamente, em grandes ídolos do futebol profissional. O Reginaldo dizia que tinha muita influência nos clubes de renome para inserir esses garotos. E dizia também que eles teriam alojamento, toda a condição para essa oportunidade", disse Mariana, acrescentando que as famílias dos garotos acreditavam na proposta e pagavam ao acusado uma taxa entre R$ 100 e R$ 450 por mês, as quais serviriam para cobrir custos de moradia e alimentação.
As investigações da polícia e os depoimentos dos aliciados desmontaram a farsa. Na verdade, os garotos trazidos a Aracaju ficavam praticamente amontoados no apartamento de Reginaldo, que tem dois quartos e camas de casal que eram divididas pelos rapazes. "Durante a investigação, o Reginaldo mudou três vezes de endereço, todos os imóveis sem nenhuma condição de acolhimento e diferentemente do que ele prometia, de que aqui eles teriam um lugar amplo e arejado, com comida e roupa lavada. Os familiares se sentiam tranqüilizados com essas promessas e aqui, isso não era fornecido. As famílias se sacrificavam em busca de um sonho, mas aqui eles não tiveram nenhuma oportunidade", disse a delegada.
Já os abusos sexuais também foram confirmados e, segundo adolescentes, eram uma condição imposta por "Doutor" em troca de ‘privilégios’. "A recusa [em fazer sexo] implicava em cortes de algumas vantagens, como alimentação, treinamento, etc. Quem cedesse, seria ‘privilegiado’", revelou Mariana, confirmando ainda que algumas das vítimas chegaram a fazer treinamentos de apresentação, mas em clubes de menor ou nenhuma expressão. A relação destes clubes também deverá ser investigada. A polícia apurou ainda que Reginaldo se apresentava como "olheiro" há pelo menos dez anos, mas, em todo este tempo, conseguiu inserir apenas um jogador em divisões de base de times.
As vítimas já foram ouvidas oficialmente e encaminhadas pelo DAGV ao Conselho Tutelar de Aracaju, que está providenciando o envio delas às suas cidades de origem – algumas já retornaram ontem mesmo. O caso também foi comunicado às polícias destes estados, que devem levantar informações mais detalhadas sobre como Reginaldo aliciava os rapazes.


