Como se fosse ontem

* Anderson Bruno

Na sexta-feira do último dia 08 de março, foi ao ar, pela Rede Globo de Televisão, o último capítulo da telenovela ‘Lado a Lado’. Escrita pela dupla de estreantes Claudia Lage e João Ximenes Braga, o folhetim das 18 horas abordou a aura carioca pós-abolição da escravatura. A supervisão dos textos dos novatos escritores ficou a cargo do veterano Gilberto Braga, autor de ‘Escrava Isaura’ (1976-1977), ‘Dancin’ Days’ (1978-1979) ‘Vale Tudo’ (1988-1989) e mais recentemente ‘Insensato Coração’ (2011), na qual dividiu os créditos com Ricardo Linhares. A novela teve Glória Pires e Antônio Fagundes à frente do elenco.

Ambientada no iniciozinho do século XX, ‘Lado a Lado’ dramatizou a fuga dos negros, moradores de cortiços na capital do Rio de Janeiro, para as cercanias da cidade maravilhosa. À época, Paris era a referência de modernidade, artística e de comportamento para o mundo. O Rio, seguindo a mesma cartilha visionária da capital francesa, decidiu modernizá-la e isso teve um custo social visível até os dias de hoje. A comunidade negra, expulsa, construiu barracos nos conglomerados atualmente conhecidos como favelas.

Mas esse é apenas o eixo central da trama que, como em todo folhetim, tem suas subtramas. O ‘lado a lado’ do título, referia-se à amizade entre a negra Isabel (uma clara citação à Princesa Isabel, responsável por assinar a Lei Áurea de abolição da escravatura em 13 de maio de 1888) e a branca Laura (nome muito ligado à palavra Áurea).

Camila Pitanga e Marjorie Estiano bem que tentaram, mas a química da amizade entre as suas personagens não fluiu com tanta desenvoltura. Os momentos mais íntimos de cumplicidade ficaram marcados por meros fricotes infantis na tentativa de mascarar a falta de naturalidade no trato dramático. Na verdade, havia momentos de mais de tensão lésbica do que precisamente de uma relação de amizade.

O carisma de Camila Pitanga ajudou bastante a atriz a compor seu papel, ao contrário de Marjorie Estiano que ainda não acertou uma desde a sua estréia na TV, interpretando a rebelde Natasha, no ano de 2004 na 11° temporada de ‘Malhação’. Este sim, seu melhor desempenho até o momento na televisão.

Lázaro Ramos se esbaldou no personagem Zé Maria, um ‘capoeira’ boa pinta e romântico. Thiago Fragoso compôs com eficiência mais um papel na sua crescente carreira televisiva. Um ator de talento. Mas quem roubou todos os holofotes foi a já veterana Patrícia Pillar. A vilã de ‘Lado a Lado’, Baronesa Constância, era a própria personificação da arrogância ariana. Numa interpretação contida e cortante, a atriz criou um papel digno de entrar para a posteridade, sem dever nada, e até se igualando, à ‘Carminha’ de Adriana Esteves na novela ‘Avenida Brasil’ (João Emanuel Carneiro – 2012). Uma das melhores performances dramáticas de Patrícia Pillar.

Um dos escorregões de ‘Lado a Lado’ foi a relação íntima de Isabel com Albertinho (Rafael Cardoso). Pensando ter sido largada no altar por seu grande amor Zé Maria, a bela afogou as mágoas com o lindo rapaz de olhos azuis. Um pouco moderninho para a época. Não colou.

Em compensação, a abordagem das desvantagens femininas no período, a política suja e homens do colarinho branco e a luta dos negros para ter um lugar ao sol numa sociedade hipócrita e discriminatória, foram os pontos fortes desta telenovela muito bem produzida e com um viés temático que, apesar de ter acontecido há pouco mais de um século, estão  fresquinhos no cotidiano como se fosse ontem.

* Anderson Bruno é crítico audiovisual.

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