Jacques Tati, a criança eterna

* Anderson Bruno

De 23 a 29 de agosto, foi realizada no Cine Vitória, a ‘Mostra Tati Por Inteiro’. Concretizado pelo SESC, o evento exibiu toda a obra cinematográfica do comediante francês Jacques Tati. Pouco conhecido aqui no Brasil, Tati é considerado um dos grandes ícones da comédia mundial, em pé de igualdade com Buster Keaton, a dupla Laurel e Hardy (O gordo e o magro) e Charles Chaplin.

Ao todo foram exibidos 6 longas de ficção, 3 curtas-metragens e 1 documentário. Com exceção do doc ‘Tati: Seguindo os Passos do Sr. Hulot’ (Sophie Tatischeff, 1986, 52min) e dos curtas ‘Cuida da Tua Esquerda!’ (René Clement, 1936, 15min) e ‘Curso Noturno’ (Nicolas Ribowsky, 1967, 27min) todos os outros filmes foram dirigidos pelo próprio Jacques Tati.

A aura cômica de Tati é irradiada por alguns aspectos criados pelo próprio autor na busca e elaboração de suas personagens. O trabalho de corpo é evidente nessa construção. Ele cria um arquétipo envolto em maneirismos que identificam de imediato suas criações. Detentor de uma estatura alta, ele se destaca agregando jeitos e trejeitos nessa elaboração criativa das suas caracterizações. Um aspecto de originalidade.

A estrutura narrativa de seus longas é composta de várias cenas de sequências filmadas, a princípio desconexas dentro de uma estrutura de roteiro, mas conectadas de acordo com a arte circense. Essa maneira de narrar o filme em atos, por assim dizer, está mais concentrado no filme ‘Parada’ (1974, 85 min). Nele um verdadeiro picadeiro é montado. Tati e outros artistas fazem do espaço um verdadeiro circo com direito a vários números cômicos – de acrobacia a malabares – bem como musicais e solos mímicos do artista francês. Todos os seus filmes são como a um grande circo, na verdade.

A música e os efeitos sonoros são uma constante nas produções de Tati. Como sua linguagem principal é a do corpo, quase não se vê diálogos nas personagens encarnadas pelo comediante. A linguagem da onomatopéia é uma constante. Os quadrinhos se apropriam muito disso. A sensação dos efeitos do som ou dos efeitos de elementos sonoros é o principal elemento sensorial destinado ao feedback do público.

A parte séria de sua obra está na clara crítica ao capitalismo, seu modo de produção industrial e aos Estados Unidos. ‘Carrossel da Esperança’, ‘As Férias do Sr. Hulot’, ‘Meu Tio’, ‘Tempo de Diversão’ e ‘As Aventuras do Sr. Hulot no Trânsito Louco’ estampam de maneira contundente essa visão.  Em ‘Carrossel da Esperança’, o carteiro François revela dignidade ao trabalhar com uma simples bicicleta, diferente dos EUA. Na América os aviões fazem o trabalho, transformando-se no símbolo do progresso telegráfico. Em ‘Meu Tio’, o Sr. Hulot conduz seu sobrinho Gerard no caminho da simplicidade; ao contrário de seus pais, fagocitados pelas tendências modernistas e sem traços de humanismo familiar.

‘Play Time’, escrito em inglês, é o título original de ‘Tempo de Diversão’.  A relação com a crítica americana já é evidente a partir desse ponto. O restante do filme é simplesmente a visão de uma sociedade robotizada, cinza, envolta num desnecessário e tecnológico progresso. ‘As Aventuras do Sr. Hulot no trânsito Louco’ faz a mesma crítica. Desta vez tendo a indústria automobilística como foco. Mesmo assim, Jacques Tati sempre encerra suas produções com uma singela e infantil mensagem de simplicidade e humildade. Coisa de quem carregou uma eterna criança consigo. Mesmo já velhinho.

* * Anderson Bruno é crítico audiovisual.

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