Gabriel Damásio
Novos protestos, fechamento de ruas e confrontos entre policiais militares e moradores do Loteamento Parque dos Faróis, em Nossa Senhora do Socorro (Grande Aracaju). Foram os fatos que se seguiram ao enterro do corpo do estudante David Philip Motta Santos, 17 anos, que foi baleado na cabeça por um soldado da Companhia de Radiopatrulha (CPRp), durante uma abordagem ocorrida ao meio dia de terça-feira. Ontem de manhã, o sepultamento aconteceu no Cemitério São João Batista, bairro Ponto Novo (zona oeste de Aracaju), sob clima de comoção e muita revolta de centenas de amigos e parentes.
Os protestos, que haviam começado instantes depois da morte de David, pararam durante o velório do corpo, na casa da família, e recomeçaram por volta das 11h, quando dezenas de motociclistas que lideravam o cortejo bloquearam a rua do cemitério, impedindo a passagem dos carros e desviando o tráfego de quem vinha do Conjunto Castelo Branco. O bloqueio durou cerca de meia hora, enquanto o corpo era sepultado. O caixão chegou a ser aberto para uma última despedida e a avó de David desmaiou, precisando ser atendida por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Os amigos e parentes se manifestaram, pedindo justiça e classificando os policiais como "assassinos" e "covardes".
Depois, no retorno ao Parque dos Faróis, o grupo mais exaltado voltou a bloquear a avenida principal de acesso ao bairro. Eles montaram uma barricada com pneus, papelão e móveis velhos. Em seguida, eles atearam fogo e colocaram mais objetos, criando uma grossa coluna de fumaça negra que podia ser vista de vários pontos da região. Com isso, carros e ônibus foram obrigados a dar meia-volta e apenas os moradores puderam passar. Aos poucos, equipes da Polícia Militar foram chegando ao local do protesto e o clima ficou mais tenso.
Os manifestantes iniciaram o confronto, atirando pedras e garrafas contra as primeiras viaturas da PM. Os reforços não tardaram e chegaram com soldados do Grupamento especial Tático de Motos (Getam) e do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq). A hostilidade dos moradores aumentou, com mais pedradas e garrafadas contra os PMs. Foi quando a tropa decidiu furar o bloqueio, disparando tiros de bala de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Alguns moradores procuraram fugir do tumulto, mas outros continuaram jogando objetos contra os policiais. O confronto durou cerca de 20 minutos, até que o fogo da barricada foi apagado por equipes do Corpo de Bombeiros – e a via foi liberada.
Os protestos não terminaram aqui. No meio da tarde, outro grupo de moradores foi até a porta da 7ª Delegacia Metropolitana (Conjunto Jardim), onde os policiais estavam concentrados. Eles passaram a reclamar da ação da polícia, alegando que não participavam do protesto, mas passaram mal com o gás das bombas. Uma mulher chegou a ser atingida, mas sem gravidade. O comando da PM informou que a ação foi necessária para garantir a liberação da avenida.
Mais tarde, um novo confronto aconteceu na avenida, quando um pequeno grupo colocou fogo em um sofá velho, na tentativa de recomeçar a bloquear a pista, e voltaram a jogar pedras contra os PMs do Choque. A reação foi rápida, com mais tiros e bombas, e o princípio de protesto foi rapidamente desfeito. Durante os confrontos, duas motos suspeitas foram apreendidas, mas nenhum manifestante foi preso. As equipes da PM continuaram ocupando o bairro até o início da noite, quando a situação ficou mais calma.


