Gabriel Damásio
Conforme já vinha sendo previsto há algum tempo, uma greve de tempo indeterminado começou ontem de manhã na Polícia Civil e na Coordenadoria Geral de Perícias (Cogerp). O movimento foi decidido na noite de anteontem, em uma assembleia na Academia de Polícia Civil. Desde então, os agentes e escrivães da PC só atendem a casos considerados urgentes, bem como os servidores dos institutos de Criminalística, de Identificação, Médico-Legal (IML) e de Análises e Pesquisas Forenses, que tiveram os serviços praticamente paralisados durante todo o dia. Os transtornos à população não tardaram em aparecer.
Na Delegacia Plantonista (Centro) e em algumas Delegacias Metropolitanas (DMs), como a 3ª (Santos Dumont) e a 2ª (Getúlio Vargas), não houve o registro de boletins de ocorrências e muitas pessoas que pretendiam registrar uma queixa voltaram para casa sem ser atendidos. Já nas unidades especializadas, como o Departamento de Narcóticos (Denarc) e o Centro de Operações Policiais Especiais, (Cope), os policiais que aderiram à greve permaneceram de plantão, mas não executavam nenhum serviço que não era considerado urgente. "Nós estamos aqui só batendo papo", disparou um dos policiais que aderiram ao movimento. Chaves de viaturas chegaram a ser entregues por agentes aos delegados, como sinal de adesão à greve.
A situação foi mais sentida no IML, onde foi longa a espera das pessoas que precisaram liberar corpos de parentes falecidos ou fazer exames de corpo delito. Algumas pessoas chegaram ao local por volta das 5h e passaram o dia inteiro esperando a vez. "Eu vim aqui no mês passado e a moça marcou pra hoje [ontem]. Eles não dão nenhuma posição. O médico chegou, entrou no prédio e não saiu pra atender ninguém. Ninguém diz quem vai ser atendido ou quando vai ser, nem dizem se é pra ficar, se marcam pra outro dia, se é pra voltar pra casa… Eu e minha esposa estamos sem almoçar. A situação é muito grave, todo mundo sofrendo humilhação e coisas de todo tipo. As pessoas que nos atendem não tem nenhuma atenção ou educação", reclama o autônomo Arlindo dos Santos, que mora no Santos Dumont (zona norte da capital) e acompanhava a esposa, vítima de acidente de moto.
Segundo usuários, uma confusão aconteceu por volta das 11h, quando uma mulher perdeu a paciência e começou a discutir com funcionários do IML, tendo logo o apoio dos outros. O bate-boca foi contornado após a chegada de um major da Polícia Militar, que telefonou para o diretor do IML e ouviu dele a promessa de que um médico chegaria ao plantão no início da tarde, o que, mesmo assim, não resolveu o problema. "É horripilante isso. A gente vem do interior, fica o dia todo aqui e é jogado num canto como se não existisse", resumiu o agente de endemias José Ricardo Rodrigues, que mora em Malhador e esperava desde às 9h30, mesmo com uma ordem judicial para fazer o corpo delito.
Tumulto – Uma confusão maior aconteceu pelas 8h30 na porta do Instituto de Identificação, no Distrito Industrial (zona sul), onde os servidores também aderiram ao movimento. Centenas de pessoas faziam fila para retirar carteiras de identidade ou atestados de antecedentes criminais, mas foram informadas de que não haveria atendimento. Os ânimos se exaltaram entre usuários e servidores e o clima piorou quando um policial civil segurou uma submetralhadora e começou a expulsar as pessoas do prédio. Uma senhora denunciou que chegou a ser ameaçada pelo agente, quando ele disse: "O seu está guardado!".
O policial armado recuou e deixou o local após ser flagrado por repórteres de rádio, mas, mesmo assim, um grupo mais exaltado bloqueou o trânsito no sentido Centro-DIA da Avenida Adélia Franco, complicando o trânsito próximo ao Viaduto Carvalho Déda. O protesto durou cerca de uma hora, até policiais militares e agentes da Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (SMTT) negociarem e conseguirem a liberação da pista. A conduta do agente deve ser investigada pela Corregedoria da Polícia Civil.


