* Anderson Bruno
"Os Incompreendidos" (Les Quatre Cents Coups, FRA, 1959, 99min), clássico absoluto do cinema francês, foi a grande surpresa do "Festival Varilux de Cinema Francês" abrigado última semana pelo Cine Vitória – Uma oportunidade para assistir um apanhado da cinematografia francesa realizada no último ano. O cineasta François Truffaut ganhou o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes por este trabalho. Ele realizou aquele que é considerado um dos filmes precursores da "Nouvelle Vague", movimento cinematográfico que revolucionou a maneira de fazer cinema na França na década de sessenta.
A figura do diretor aí é de extrema importância por concentrar todas as etapas da produção dentro do âmbito de suas ideias. O cinema de autor é alçado a níveis supremos dentro de um status artístico-cinematográfico. Neste filme Truffaut soube explorar muito bem essa peleja.
Antoine Doinel, personagem principal, é considerado um alter-ego do diretor. O roteiro – escrito por ele junto a Marcel Moussy – explora uma Paris totalmente às avessas. É o ponto de partida ideal para pôr em celuloide a parte transgressora da "Nouvelle Vague".
Antoine é filho único de um casal parisiense. Mesmo sendo um adolescente (por volta de 14 anos), a visão transparecida em seu drama é o de uma criança. A faixa sonora de Jean Constantin estabelece essa visão ao explorar melodias lúdicas na construção de suas músicas instrumentais. Por vezes até melancólicas visto o cotidiano nada fácil do menino.
O glamour romântico francês começa a ser desconstruído, com a ajuda da cenografia de Raymond Lemoigne junto ao figurino. É revelado um cubículo a moradia do pequeno enfante. Nem a porta do seu quanto pode ser aberta por completo. Mal sua cama cabe no dormitório. Suas roupas rasgadas revelam uma condição financeira um tanto modesta e difícil. Essa condição é acentuada pelo egoísmo de sua mãe Gilberte (Claire Maurier).
Dentro do clichê, ela é loura, linda, de cintura fina e peitinhos durinhos. Sensualidade francesa tipo exportação. Bem no início da produção, sua penteadeira é evidenciada. Como a um verdadeiro templo dedicado a Vênus, Afrodite e a L’oréal. Ela participa da reprodução mais paradoxal registrada na película. Numa cena externa, sem nenhum pudor, ela é flagrada pelo menino num tórrido e adúltero beijo. Um tapa na cara da moralidade social. Paris, a capital mundial do romantismo, cai por terra. Ali está a vida como ela é. E a vida não é um filme com direito a final feliz.
Logo nas primeiras cenas, a fotografia em preto e branco de Henri Dacaë revela a cidade luz tendo a Torre Eiffel como eixo principal. Os planos são gravados nas próprias ruas em direção ao colosso de aço. É também uma forma de evidenciar – através desse símbolo – a capital francesa, talvez a principal personagem do filme. É nas suas ruas, apartamentos e escolas que toda a saga de Antoine nos é apresentada.
A compreensão de seus transtornos é revelada numa conversa aparentemente simples, num longo plano de câmera fixa, numa entrevista com uma psicóloga. Sua biografia infantil, sexista e familiar está concentrada nesta cena em tom de confidência para com o público, os únicos que conhecerão e entenderão sua saga. Jean-Pierre Léaud, ator que interpreta o protagonista, reprisou o mesmo personagem em outros quatro filmes subsequente do diretor. Imperdível. Quem perdeu, perdeu!
* Anderson Bruno é crítico audiovisual.


