Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br
O Complexo Penitenciário Jacinto Filho (Compajaf) foi palco neste final de semana de mais uma rebelião que se estendeu por 24 horas de negociação, tensão e apreensão. Ela envolveu cerca de 112 presos da Ala D, onde ficam os presos considerados mais perigosos, e alguns da Ala A, que conseguiram juntar-se aos vizinhos através de um buraco feito no muro. Por volta das 13h de sábado, durante o horário de visitas os presos conseguiram capturar cinco agentes de disciplina que faziam uma vistoria nas celas da ala. Em seguida, eles se armaram com facas e chuços, mataram um cachorro usado nas revistas diárias e impediram a saída de 126 parentes que os visitavam, entre crianças, idosos e mulheres.
A rebelião só acabou às 13h de domingo, depois que os representantes das secretarias de Justiça (Sejuc), Segurança Pública (SSP) e Direitos Humanos (Sedhuc) concordaram em atender a principal reivindicação dos rebeldes: a transferência de 16 presos para dois presídios do interior – cujos nomes não foram revelados. Ontem, o secretário Walter Pereira Lima, da Sejuc, confirmou que eles são mesmos líderes da rebelião provocada em 14 de abril deste ano no Presídio Regional Manoel Barbosa de Souza (Premabas), em Tobias Barreto (Centro-Sul). Segundo ele, a vinda desse grupo para o Compajaf causou sérios problemas de relacionamento dentro da cadeia, o que poderia resultar até em brigas e assassinatos.
Os detentos também reclamavam do rigor no tratamento dos agentes com eles e seus visitantes, por conta das revistas diárias e do regime disciplinar mais rígido. Alguns afirmam que sofreram maus-tratos, como agressões e muitas horas nas celas de isolamento, conhecidas como "trancas". Walter assegura que essa exigência foi negada, pois ela quebraria os padrões de segurança máxima do Compajaf, o qual abriga presos considerados de alta periculosidade e integrantes de facções criminosas do Sudeste do país. Sobre as denúncias de maus-tratos, as autoridades asseguraram que elas serão apuradas pela Corregedoria da Sejuc.
Os quatro agentes tomados como reféns, que trabalham na empresa Reviver (cogestora do Compajaf), passam bem, mas foram afastados do serviço para tratamento psicológico. Um deles teve ferimentos de facas nas pernas, enquanto os outros foram agredidos pelos rebeldes. Já os parentes dos presos nada sofreram, mas ficaram abaladas ao deixar o presídio.
Tensão – Negociadores da Polícia Militar e da própria Sejuc se mobilizaram para conversar com os líderes da rebelião, mas a negociação foi suspensa ao final da noite, após a liberação de um dos agentes e de alguns dos familiares que estavam retidos pelos detentos – outros decidiram ficar, como forma de proteger os presos de uma possível invasão da PM. Elas só foram retomadas às 9h de domingo, com a chegada do juiz da Vara de Execuções Criminais, Hélio Figueiredo Mesquita, e dos secretários Walter Pereira Lima (Justiça), João Eloy de Menezes (Segurança Pública) e Antônio Bittencourt (Direitos Humanos). Daí, seguiram-se mais quatro horas de conversa até a rendição dos detentos.
As 24 horas de espera tiveram momentos de muita tensão. Ainda no início da rebelião, outros dois guardas conseguiram escapar dos rebeldes, trancaram alguns portões de acesso e acionaram os grupos de Escolta Penitenciária (Gepen) e de Operações Penitenciárias Especiais (Gope). Estes, por sua vez, agiram rápido e conseguiram isolar as áreas rebeladas das outras alas do complexo, junto com soldados do Comando de Operações Especiais (COE) e do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq).
Segundo o comandante geral da Polícia Militar, coronel Maurício Iunes, foram três incursões feitas pela PM dentro do Compajaf, sendo algumas com uso de bombas de efeito moral. Para Iunes, a estratégia deu certo e impediu que todos os detentos aderissem ao levante, como aconteceu durante a rebelião de 26 horas ocorrida em abril de 2012 – a penitenciária, considerada de segurança máxima, tem cerca de 480 homens, entre provisórios e sentenciados.
O Compajaf foi cercado por policiais militares, Corpo de Bombeiros e Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Outros parentes de presos, curiosos e jornalistas foram mantidos à distância, em um cerco montado a poucos metros da entrada do presídio. Alguns parentes chegaram a criar tumultos devido à falta de informações, mas estes foram rapidamente controlados.


