Prisão de enteado com armas ameaça permanência de Eloy

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

Uma tentativa de assalto a um taxista desdobrou-se em um escândalo que pode até custar o cargo do secretário da Segurança Pública, João Eloy de Menezes. O enteado dele, Ítalo Bruno Araújo Fonseca, 21 anos, foi preso na madrugada de domingo junto com um amigo, Eduardo Aragão de Almeida, 38. Após serem denunciados pela abordagem contra o taxista Roberto Basílio Cabral, na Coroa do Meio (zona sul de Aracaju), Ítalo e Eduardo foram abordados pela Polícia Militar na Orla de Atalaia, sendo flagrados com duas pistolas ponto 40, um fuzil 556 de uso restrito da SSP, uma lanterna e dezenas de carregadores e munições de diversos calibres, além de uma caminhonete VW Amarok de cor branca.

Os dois foram levados para a Delegacia Plantonista (Centro), onde prestaram depoimento e chegaram a ser reconhecidos pelo taxista. No entanto, eles acabaram soltos na manhã de domingo, pois o delegado plantonista Augusto César Mendes de Oliveira entendeu que não havia provas de que o assalto tenha ocorrido, autuando-os apenas pelo crime de porte ilegal de arma – previsto no Código Penal como inafiançável e com pena entre três e seis anos de prisão. Ainda assim, ficou decidido que Ítalo e Eduardo podem responder ao processo em liberdade. O inquérito foi remetido para a Delegacia Especial de Turismo (Detur).
"O caso foi avaliado pelo delegado de polícia, a única autoridade policial dentro da delegacia que pode avaliar se uma situação é de flagrante ou não, e ele avaliou que não havia dolo, porque as armas não estavam no carro, e que não havia nenhum outro indício de crime. Mas as investigações vão continuar para esclarecer qualquer dúvida", justificou a superintendente da Polícia Civil, Katarina Feitoza, em entrevista coletiva concedida ontem de manhã pela cúpula da SSP. Nela, o secretário-adjunto João Batista Santos Júnior informou que, ao todo, serão instaurados dois inquéritos policiais e, pelo menos, três sindicâncias internas da Corregedoria da Polícia Civil (Corregepol), para apurar fatos relativos ao escândalo.

Durante todo o dia, surgiram especulações de que João Eloy seria afastado temporariamente ou demitido da SSP, para garantir a imparcialidade das investigações sobre o enteado. Isto chegou a ser defendido abertamente pelo Sindicato dos Policiais Civis de Sergipe (Sinpol). No entanto, o afastamento dele foi negado por João Batista e também pelo secretário-adjunto de Comunicação do governo, José Sales Neto, que também acompanhou a coletiva. "Deve-se separar o gestor do privado, porque há também o lado do pai de família que está sofrendo com um problema de ordem pessoal", disse Batista.

Reconheceu – O taxista falou ontem aos jornalistas e reafirmou que foi mesmo vítima de uma tentativa de assalto. De acordo com Cabral, ele estava com quatro passageiros e iria deixar uma delas em casa, quando o táxi foi emparelhado pela Amarok branca. "O motorista que estava do lado parou, abaixou o vidro e me apontou uma pistola e a lanterna. E disse ‘É assalto, passe o dinheiro’. Foi uma tentativa. Eu e os passageiros ficamos transtornados e aí me deu a ideia de gritar: ‘Polícia! Aqui tem polícia’. E aí, o cara ficou com medo e fugiu. Aí nos saímos do local e ligamos pra polícia, porque aquela área é muito perigosa", relatou a vítima.  

Minutos depois de telefonar para o Centro Integrado de Operações em Segurança Pública (Ciosp), Basílio foi avisado de que a caminhonete branca foi achada com dois suspeitos em frente à Passarela do Caranguejo, por soldados da Companhia de Policiamento de Turismo (CPTur). A detenção foi registrada por gravações de telefone celular e mostram Ítalo e Eduardo sendo levados para a viatura, sem serem algemados. "Eu reconheci o rapaz que me abordou e, até então, eu não sabia que ele era o filho do secretário da SSP e que eles tinham aquelas armas todas. Só soube realmente disso quando cheguei na delegacia", disse ele, ao descrever que ficou surpreso, mas tranquilo. Nenhum objeto dele foi levado.

Basílio disse ainda que chegou a ser questionado, superficialmente, se a cor do carro era preta ou branca, mas garante que não foi pressionado em nenhum momento pelos policiais ou pelo delegado. "Me trataram bem na delegacia, prestei o depoimento normal e vim-me embora. Só cumpri com o meu papel de prestar uma queixa, porque fui vítima. Só não imaginava que o rapaz seria solto e nem que iria dar essa repercussão toda", disse ele. 

Compartilhe esta notícia