Comitê usa carranca em defesa do São Francisco

Kátia Azevedo
katiaazevedo@jornaldodiase.com.br

O Dia Nacional em Defesa do Rio São Francisco mobilizou ontem pescadores, comunidades indígenas, quilombolas, pesquisadores, estudantes e gestores em torno de políticas públicas de revitalização do Velho Chico.

A mobilização, organizada pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), foi realizada nos cinco estados banhados pelo rio. No Baixo São Francisco, a cidade escolhida foi Penedo, em Alagoas, onde o ato reuniu milhares de pessoas através da campanha ‘Eu viro carranca pra defender o Velho Chico’.

A mobilização iniciou pela manhã, com um Café Regional, seguido de uma mesa redonda sobre a pesca no rio São Francisco. O ponto alto das atividades foi uma caminhada em direção ao rio, a partir das 10h, quando grupos indígenas derramaram potes de água e os pescadores fizeram uma simbólica operação de peixamento nas águas do Velho Chico.

O evento teve uma mesa redonda, com os coordenadores da Fiscalização Preventiva Integrada (FPI) do Rio São Francisco em Alagoas e promotores de justiça do Ministério Público do Estado de Alagoas (MPE/AL).
O secretário Executivo do CBHSF, Maciel Oliveira, destacou que a proposta da campanha é alertar a população para os problemas enfrentados pela bacia do São Francisco e incentivar boas ações em favor do rio.

Em seguida foi realizada uma caminhada pelas ruas da cidade até à margem do rio, onde os participantes da mobilização deram as mãos e cantaram o hino nacional no porto das balsas, momento em que a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) realizou a inserção de 100 mil peixes nativos das espécies xira e piau.
"A preservação e revitalização da bacia hidrográfica do rio São Francisco é fundamental para melhorar a oferta de água nas sub-bacias do rio e proporcionar mais qualidade de vida às pessoas beneficiadas pelo Velho Chico", lembrou.

Ele ressaltou que a campanha integra as comemorações da Semana do Meio Ambiente e ao Dia Mundial do Meio Ambiente, que acontece amanhã, 5 de junho.
Maciel Oliveira ressaltou que a situação do Velho Chico é preocupante e os pescadores e indígenas são os que mais sofrem. "Por esta razão realizamos esta campanha com a proposta de mobilizar todas as comunidades ribeirinhas. Sabemos que a sobrevivência do rio também é uma questão de sobrevivência dos ribeirinhos, que sofrem pela falta do pescado", disse. "O rio está morrendo com drásticas mudanças no ecossistema. Por isso a importância da campanha como um momento de união", acrescentou.

Durante o evento, as comunidades indígenas e pesqueiras também relataram as dificuldades que estão enfrentando com o represamento do rio. "As hidrelétricas represaram as águas do nosso rio. As hidrelétricas, a União, não são os donos do Velho Chico, nós que somos os verdadeiros, as comunidades tradicionais que dele sobrevivem, dependem e pescam", disse Henrique Tingui Botó, de Feira Grande. Ele encerrou a fala com um recado: "Não virem só carranca, virem animais pela sua defesa".  
A carranca, adotada na campanha como forma de fazer uma homenagem aos povos banhados pelo Rio São Francisco, é um adorno que faz parte da crença dos ribeirinhos que a utiliza para espantar os maus espíritos.
A carranca é colocada na proa dos barcos, para afugentar, colocar para longe tudo de ruim, que possa fazer até virar as embarcações.

A mobilização em Penedo também contou a participação de representantes de Sergipe, a exemplo do projeto Águas do São Francisco, realizado pelo Sergipe Parque Tecnológico (SergipeTec), em parceria com a Universidade Federal de Sergipe  e patrocínio da Petrobras.
Também estava presente a comunidade acadêmica representada por meio de estudantes das três instituições de ensino superior que atuam na região: Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Universidade Federal da Sergipe (UFS) e Universidade Tiradentes (UNIT), que fizeram  exposições de painéis temáticos sobre o rio.

Além de Penedo, também houve mobilização em Neópolis, onde a Codevasf promoveu uma caravana de conscientização ambiental na cidade, no Baixo São Francisco sergipano. Primeiro, foi apresentada uma palestra para alunos do Centro Educacional Municipal Tiradentes. Em seguida, os estudantes participam de um peixamento no rio São Francisco.

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