Rian Santos
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De vez em quando alguém vai embora. Pra mim, a ficha caiu quando a fome implacável do mundo arrastou o ator Ivilmar Gonçalves pro escuro. Poucos dias antes de se calar pra sempre, Ivilmar havia me presenteado com um volume de seus primeiros versos publicados. A gente não se conhecia ainda, nem chegaríamos a tanto, mas ele me estendeu a mão com um sorriso e entregou o livro. Com dedicatória e tudo. Parecia mentira.
Depois foram Luiz Antonio Barreto, o primeiro a reconhecer os meus esforço autorais, atencioso a tudo o que dizia respeito às aflições da aldeia; Roberto Nunes, o cara difícil por trás do Cine Cult; minha Vó Tapuia, finalmente decidida a um descanso merecido, senhora de um século inteiro de causos, saudades e rabugices enternecidas. Cada dia fica mais puxado, meu amigo.
Os meninos têm a ilusão do eterno. Quando se perde essa fé absurda no tempo, chegam os cabelos brancos, as fraquezas e as rugas. E uma caixa empoeirada, cheia de retratos amarelados, rasgados a tesoura, feitos metade, imagens deformadas pela mágoa, as nossas perdas.
O cantor Rogério, homenageado ontem mesmo por colegas, familiares e admiradores de seu trabalho, com merecida pompa, em tributo no Teatro Atheneu, foi o último entre os valores da música local (é preciso reconhecer, a despeito do choque de gerações e, sobretudo, ponto de vista) alcançado pelo mistério. Que a terra lhe seja leve.


