Milton Alves Júnior
miltonalvesjunior@jornaldodiase.com.br
Moradores dos municípios de Neópolis, em Sergipe, e Penedo, Estado de Alagoas, têm enfrentado problemas no transporte fluvial realizado há mais de 50 anos entre as duas cidades. Conforme relatos dos passageiros, uma ação rara da natureza tem contribuído para que neste mês de agosto o nível do rio tenha baixado acima da média anual. Com essa redução, as embarcações têm encalhado com frequência nas dezenas de elevações de areia, o que resulta em até três horas de interdição na travessia. Segundo informações dos condutores de lanchas, só esta semana quatro embarcações já passaram pelo mesmo problema. A situação preocupa aqueles que dependem deste transporte como meio de renda familiar.
De acordo com o navegador Antoniel dos Santos, experiente condutor desse tipo de barca e cadastrado na Associação de Navegadores do Baixo São Francisco, todos os meses de julho, agosto e setembro é previsível a redução do nível do Rio São Francisco, mas conforme avaliação dele, 2014 tem apresentado os índices mais baixos e altos da história em Sergipe. Sempre acompanhado do filho caçula, Sr. Nel de Dona, como é bastante conhecido na região, lamenta os encalhamentos constantes e solicita uma avaliação técnica a fim de saber quais as medidas emergenciais que devem ser adotadas pelos trabalhadores. Atualmente 27 pessoas estão cadastradas para realizar a travessia no eixo Sergipe – Alagoas.
"Eu trabalho aqui há 30 anos e nunca vi algo parecido. Parece que de uma hora pra outra toda essa água vai para algum lugar que ninguém sabe. Sabemos que pode ser uma temporada, mas se continuar assim em setembro nosso bolso vai doer porque ninguém quer ficar parado no meio do mar por duas horas", afirmou. Na manhã de ontem outra lancha ficou encalhada em um banco de areia e após 15 minutos de interdição do serviço seguiu viagem. O barco apenas conseguiu se retirar do local após contribuição do condutor de uma lancha menor na qual passava nas proximidades e decidiu ajudar. Geralmente estas embarcações possuem capacidade para 20 pessoas e medem até 15 metros.
Aqueles que precisam desse meio de transporte para ir trabalhar ou estudar, estas ocorrências representam risco para a integridade física dos passageiros. Esse é o caso da artesã Ana Claudia que diariamente trabalha em um povoado que fica localizado próximo de Penedo. "Como eu trabalho lá, o jeito que encontrei foi matricular minha filha em uma creche também de lá. Consegui essa permissão e toda vez que vou e volto do trabalho eu estou acompanhado da minha filha. Tenho medo de bater nessa areia e a barca virar. Esse é o medo de todo mundo", disse. Segundo cálculos dos condutores, mais de 120 pessoas utilizam as lanchas diariamente.
Até o momento nenhuma pesquisa foi divulgada quanto às causas desses problemas. Em Aracaju, o especialista em erosão e redução do nível dos rios, Everaldo Bittencourt, disse ao JORNAL DO DIA que estas ocorrências podem estar atreladas ao assoreamento. Processo em que observa-se no leito dos rios acúmulo de detritos, lixo entulho e outros , no fundo dos rios e lagoas interferem na topografia de seus leitos impedindo-os de portar cada vez menos água, provocando seu transbordamento em épocas de grande quantidade de chuvas e tornados. "Realmente é preciso averiguar a situação, mas diante do que foi apresentado pelo navegador e passageiro, creio que o assoreamento esteja causando esses episódios", declarou.


